Uma discussão trans(tornada)
Os últimos quarenta anos têm sido muito relevantes no que diz respeito à afirmação de dois direitos – o direito a amar e o direito a ser.
Depois de séculos de repulsa provocados por consagrações que resultavam da doutrina de várias igrejas nas sociedades, o direito a amar consagrou-se e caminha para a normalidade. Ser hétero, homo ou bi é a aceitação completa da orientação sexual de cada ser.
Tal consagração permitiu o casamento de pessoas do mesmo sexo, autorizou a adoção e a procriação medicamente assistida. O património legislativo sobre este universo está consolidado e, com exceção da direita radical populista, já quase não há contestação. Dei o meu contributo empenhado enquanto governante e parlamentar para este caminho e nunca sucumbi a qualquer implicação religiosa como muitos quiseram indicar.
Neste período foi agregado um outro universo de questões que têm a ver com o direito a ser. Nele estão incluídas as pessoas intersexo e as pessoas trans nas suas três categorias. Temos, assim, a integração das palavras do movimento LGBTI ao qual eu retiro o Q (queer) por serem meros profissionais da causa, o A (assexuais) por não interessar a ninguém quem faz ou não sexo, e o por ser folclore ou conversa de café.
Nos últimos dias, a discussão pública sobre a realidade trans voltou a criar dano, o cancelamento voltou a ser a base da discussão, o radicalismo cresceu. A forma como as esquerdas estão a fazer o debate cria-lhes um dano eleitoral muito significativo por desligamento do sentir maioritário, mas teimam nos erros. Nunca é avisado ir mais além do que a sociedade pode aceitar a cada tempo.
Quando, em 2017/2018, se discutiu a lei de autodeterminação da identidade de género e expressão de género (designação profundamente errada), era eu deputado e reclamei, dentro do grupo parlamentar do PS e na análise prévia, a elaboração de uma lei que incluísse pessoas intersexo e pessoas trans. O debate estava tão dirigido, marcado pela necessidade de se usarem as causas fraturantes partidas às postas como suporte ao governo da Geringonça, que foi completamente ignorada esta minha reivindicação.
As pessoas intersexo são completamente ignoradas no tal coletivo LGBTQIA , são clandestinas no universo dos serviços de saúde, são igualmente discriminadas nas escolas e na sociedade.
As leis de 2011 e 2018, sofrem de um conjunto de problemas que o........
