Eu explico a Miguel Morgado o que é a violência de extrema-direita
Miguel Morgado parece muito preocupado com a violência exercida pela extrema-esquerda em Portugal. Admito que não sei bem a que extrema-esquerda se refere: à minha volta, ninguém defende expropriações, redistribuição de metros cúbicos de latifúndios ou sequer ataques concertados a propriedade privada. Sobretudo, não há ninguém de arma na mão pronto para a luta. A esquerda inorgânica não tem qualquer acção concertada e, aqui que ninguém nos ouve, as medidas da esquerda parlamentar pertencem ao campo da social democracia.
Focando-se no caso – único e asqueroso – de Nelson Vassalo, que atirou um cocktail molotov aos manifestantes de uma marcha contra a interrupção voluntária da gravidez, Morgado afirmou, na SIC Notícias, que este acto teve apoio político. Acusei-o de mentir, e reitero-o. Veja-se: José Manuel Pureza, coordenador do Bloco, afirmou que “a ação exige uma condenação clara: atacar pessoas que se manifestam pacificamente é um ato inaceitável”; o PCP condenou o uso de engenhos explosivos ou incendiários em manifestações; o PS afirmou que “não pactua com nenhum tipo de violência” e que considera “intolerável qualquer acto que possa consubstanciar um comportamento desse tipo”; Rui Tavares, líder do Livre, afirmou que “a violência política é igualmente condenável quer concordemos com as ideias das pessoas que dela são alvo, quer delas discordemos”.
Não houve apoio social a Vassalo, nem político, nem partidário. Morgado sabe-o, os partidos de esquerda sabem-no, e os de direita também. E se os últimos insistem tanto neste caso, tentando colá-lo a um movimento abrangente, é porque não têm mais por onde pegar. O próprio Morgado, imagine-se, acha que a extrema-esquerda – sem nomear qualquer organização que pertença a este campo político em Portugal – é violenta por lhe pôr em cima a etiqueta de fascista. Ora, assumindo que, aqui, fascismo e comunismo estariam em pontas opostas, devo dizer que não se passa uma semana sem que alguém de extrema-direita me chame comuna. É indiferente que eu esteja na esteira da social democracia e que se falhe, por isso, na classificação ideológica, como Morgado parece achar que se falha na sua. Jamais me passaria pela cabeça considerar a extrema-direita violenta por uma classificação que eu julgasse errónea. Seria bom, mas a vida é outra coisa. E por isso admito a minha incapacidade de comiseração para com Morgado, avessa que sou a hipersensibilidade. Quem é mulher de esquerda no espaço público não tem grande paciência para quem tem a pele tão fina.
Desde que debati........
