Horror e realismo mágico na escrita sobre gordura e memória
Cida é o nome que consegue dar à personagem que anseio ser: a que se vinga, de fato. A que, no limite do horror da vida, esbarra no realismo mágico - aquele, tão latino-americano que só a gente entende - e consegue dar vida ao que parece morto. Nome, ao que não conseguimos pôr em palavras. Mapear o horror para que ele torne-se, de algum jeito, uma forma de entreter. Uma história. Um jeito de ser lembrado e, quiçá, não se repetir. Há muito tempo me perguntam por que escrevo sobre corpos gordos. A resposta mais honesta é: porque nunca consegui escapar deles. O meu, sobretudo. Mas também os corpos das mulheres, das pessoas racializadas, dos sujeitos considerados excessivos, inadequados, monstruosos. O que talvez eu nunca tenha conseguido explicar é por que, justamente agora, escolhi o horror para fazer isso.
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Por isso, caro leitor, venho contar, em primeira mão, da minha estreia na ficção com O que se move não precisa ser nomeado e não, não foi uma mudança de rota. Foi uma consequência.
A coleção, organizada pela escritora e artista Janaina Tokitaka, nasce de uma pergunta que me interessa há muito tempo: o que acontece quando mulheres e animais deixam de ocupar lugares separados? Em Papéis Selvagens, da editora Mapa Lab, cinco escritoras investigam justamente esse território onde o cotidiano se abre ao estranho, o medo convive com o desejo, o luto encontra a sobrevivência e os bichos deixam de ser metáforas para se tornarem forças capazes de revelar aquilo que a realidade insiste em esconder.
Não é por acaso que essa estreia acontece durante a Flip. A coleção reúne narrativas em que o selvagem não está na floresta, mas nos corpos, nas relações de poder, nas violências herdadas e naquilo que ainda não aprendemos a nomear.
Depois de anos escrevendo jornalismo, crônica, ensaio e, mais recentemente, a autoficção radical de Porca Gorda, percebi que havia uma violência que já não cabia na linguagem do real. A violência cotidiana contra corpos gordos e femininos é tão naturalizada que, quando a descrevemos de maneira objetiva, ela frequentemente parece banal. Como se fosse apenas mais um dia.
Mas não é. É monstruosa.
Penso que justamente por isso que autoras como Mariana Enriquez, María Fernanda Ampuero e Carmen Maria Machado - de quem sou absolutamente fã e viciada - tenham me revirado tanto nos últimos anos. Elas entenderam o fundamental: o horror não inventa monstros, apenas revela aqueles que sempre estiveram entre nós.
Quando Enriquez transforma casas, bairros e cidades em organismos vivos, ela está falando das ditaduras, da pobreza, do abandono e da violência de Estado. Quando Ampuero leva mulheres ao limite do grotesco, ela não está exagerando a........
