menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A revolução acaba na barriga dos outros

19 0
30.06.2026

Outro dia percebi uma coisa curiosa: no Brasil, toda discussão política termina numa avaliação estética e não importa o assunto.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Pode ser a taxação dos super-ricos, o desmonte do SUS, a alta do feminicídio, a Copa do Mundo ou o preço do café, sempre aparece alguém para dizer: "Mas você viu o tamanho da barriga dele?”, “mas ele é careca”, “mas ela tem o pé horroroso”, “mas ele é baixinho” e a lista segue, infinita. 

É impressionante, o argumento dura dois minutos. Depois começa um concurso de Miss Brasil do ressentimento. Noto que o brasileiro tem uma dificuldade enorme de discordar sem abrir uma banca de jurados. Todo mundo vira especialista em nariz, papada, cabelo, ruga, celulite, calvície, peito, bunda, peso. A democracia vira um desfile apresentado por pessoas que jamais aceitariam ser avaliadas pelos próprios critérios.

Meu personagem favorito, porém, é o progressista. Esse merece um estudo, porque assina abaixo-assinado, compartilha campanha contra o feminicídio, defende universidade pública, faz doação para vaquinha de artista independente, até lê autoras feministas, ouve podcasts desconstruindo ideias, ostenta o manual antirrascista debaixo do braço, sabe até citar cinco artistas negros, reconhece a palavra gordofobia como algo que não se pode cometer de luz acesa, explica interseccionalidade na mesa do bar, paga a mais para a faxineira como forma de reparação histórica, sabe a diferença entre racismo estrutural e institucional e até fala sobre isso.

Quando o tema é representatividade, ele poderia palestrar por horas e horas. Mas, basta alguém de quem ele discorda aparecer na televisão e a primeira frase sai automática: "Também... olha a cara dele”, ou "Você viu como ela engordou? Ela está IMENSA”, ou ainda: “Com essa calvície eu ficava quieto.”

É curioso como a revolução termina exatamente onde começa o corpo dos outros. Tenho pensado que existe um limite para boa parte do progressismo brasileiro e ele não passa pela........

© Estado de Minas