Quase silêncio
O mundo já esteve assim outras vezes, acabrunhado, completamente desarrumado, feito um mendigo cósmico perambulando entre as estrelas, um sonâmbulo vagando em elipse em torno do sol. Foram muitas as vezes em que estivemos na véspera do fim do mundo. Uma infinidade de cruzes sinalizam as curvas à beira dos precipícios em que nos debruçamos. Mundo, vasto mundo, ainda encontraremos solução?
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A memória desses momentos ficou ricamente documentada. As testemunhas e as vítimas das catástrofes registraram o que viram e viveram em músicas, livros e filmes. Ergueram monumentos, batizaram ruas e avenidas para que ninguém esquecesse o que passou. A diferença agora, ainda caminhando pelas ruas do presente, é o quase silêncio.
A resposta aos nossos males é um pobre enfrentamento de versões, vencendo a peleja o lado que construir os melhores argumentos, mesmo que à custa de invencionices de inteligência artificial. Assim vamos construindo o relato de nossa passagem pelo planeta à revelia da realidade – um punhado de inconsistências, uma coleção de vazios. Remendos insuficientes para esconder nossas vergonhas. “Vamos aos fatos”, se dizia antigamente. Não temos ido. Naturalizamos as tragédias como parte da paisagem.
Quem escreverá nossa história para o futuro? Certamente, uma vez mais, os vencedores, mas diga, em havendo ainda livrarias em futuro próximo, quem pagaria um vintém por um livro........
