A digital da solidão
A polpa digital mudou de função. Além da digital tradicional que nos identifica, deixa rastros eletrônicos que revelam confidências e inconfidências.
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Dizem que o homem moderno não está mais sozinho. Carrega no bolso um aparelho que o conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas. Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão — apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que expressam sentimentos........
