Opinião | Nem no hospital estamos livres de trambique: golpe do exame faz vítimas entre idosos e enfermos
Fui no cardiologista conferir as minhas tubulações. Na consulta, o doutor estava mais queixoso do que eu. O motivo: tem golpe novo. Envolvendo nossos velhinhos e nossos enfermos. Logo eles.
Funciona assim: o paciente acabou de fazer um exame. Está em casa, se recuperando. Toca o telefone, dizem que é do hospital, que deu alteração, que teve de refazer o exame; que vão enviar rápido um motoboy com o novo, porque é tudo urgente quando assunto é saúde. Sempre cola.
Dão a ficha completa: nome, CPF, convênio, médico responsável e tipo de exame. A pessoa fica assustada: deu alteração. Então manda vir. Quando vai pagar a entrega ao motoboy – atarantado, fragilizado –, o paciente não percebe o valor na maquininha. Em vez de R$ 7, acaba pagando R$ 7 mil. O motoca vai embora protegido pelo capacete, enquanto o paciente fica lá, agoniando e piorando (porque se estressa).
Acontece dentro dos hospitais também. Paciente está internado, ligam no quarto (no quarto!) com todos os dados. Avisam que o exame que ele acabou de fazer (como sabem?) deu problema - e precisa refazer. Este segundo exame o seguro não cobre, e é inadiável: caso sério. Pedem Pix. O paciente manda, claro, está com medo. Aí, perde uma grana. Já aconteceu, segundo meu médico, do paciente estar em um telefone com o golpista, e o acompanhante no outro com o doutor.
Golpistas usam IA para se fazer passar pelo rei da Bélgica e obter dinheiro
Golpistas usam IA para se fazer passar pelo rei da Bélgica e obter dinheiro
Central de golpe da Faria Lima tinha ‘braço’ em outro cartão-postal de SP: ‘Nova tendência’
Central de golpe da Faria Lima tinha ‘braço’ em outro cartão-postal de SP: ‘Nova tendência’
Febraban faz alerta sobre golpe do falso advogado; veja como funciona
Febraban faz alerta sobre golpe do falso advogado; veja como funciona
O golpe não está acontecendo somente onde meu médico trabalha. Tem hospital que já acumula R$ 4 milhões roubados de pacientes. Tem outro registrando dez golpes por dia - 300 por mês! E mais outro que proibiu telefonemas externos para os quartos. Não é só em um lugar, e por isso fica difícil cravar que o vazamento de dados venha de dentro dos hospitais. A não ser que a quadrilha já esteja espalhada por vários. A polícia? Super preocupada: vira e mexe prende um motoboy – e só.
Veja: o que me dá prazer mesmo é vir aqui e entreter. Contar, por exemplo, da minha experiência em montar uma cadeira que comprei mas não quis pagar R$ 60 pelo serviço completo. Foi um caos, perdi a tarde inteira e a cadeira parece uma cacatua. Ou dos bloquinhos que brotam pela rua quando chove, feito cogumelo, enlouquecendo o Waze.
Mas essa crueldade psicopata de dar golpe em doente se impõe como assunto. Parto do pressuposto que quanto mais gente souber o que está acontecendo, melhor poderemos nos defender - e mais perto estaremos de pegar estes estercos humanos. Quem faz isso merece todos os infernos de Dante juntos.
