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Opinião | Centenas de milhares de foliões no carnaval de rua? Porque as contas não batem

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15.02.2026

Você certamente já ouviu falar de eventos públicos com centenas de milhares ou até milhões de participantes, principalmente neste período de carnaval. Mas eu sinto dizer que você foi sistematicamente enganado. Explicarei com uma breve linha do tempo.

Começando com dois grandes eventos que ocorrem anualmente em São Paulo: a Marcha para Jesus e a Parada LGBTQI+. Em 2012, os organizadores divulgaram números de 6,5 milhões e 4 milhões de participantes, respectivamente.

Contudo, pela primeira vez, um ente independente, o Datafolha, fez uma estimativa de público. A metodologia consistia em dividir a área em quadrantes e estimar a densidade de pessoas/m2 via repórteres em campo e fotografias, para então multiplicar a densidade pela área dos quadrantes e somar os públicos dos quadrantes. O Datafolha estimou 270 mil pessoas na então chamada Parada Gay e 335 mil na Marcha para Jesus, mais de 90% menores que as estimativas dos organizadores - revelando que os números enormes divulgados até então eram apenas invenções sem lastro na realidade.

Nota: como referência de densidades de público, o limite aceito em ônibus em São Paulo no horário de pico são 6 pessoas por m2 (em pé) - e, em espaços abertos, 5 pessoas por m2 já representa uma lotação altíssima.

Em 20 de junho do ano seguinte, nas chamadas jornadas de junho de 2013, houve um protesto na Avenida Paulista que, segundo os organizadores, reuniu 1 milhão de pessoas - contra uma estimativa de apenas 110 mil do Datafolha. Considerando que a Paulista tem cerca de 100.000 m2 de área entre a Rua da Consolação e o Metrô Paraíso (calçadas inclusas), ela comportaria no máximo 500 mil pessoas. Mesmo considerando a rotatividade de público, estima-se que isto não alteraria o total em mais de 20%.

Ou seja: mais um caso de estimativa de público por parte dos organizadores desconectada do mundo real. Vale lembrar que é de praxe os organizadores divulgarem imagens impressionantes do meio do evento, mas jamais das extremidades (que seria um componente vital para calcular o público total). Infelizmente a iniciativa do Datafolha não durou muito e estas estimativas deixaram de ser feitas no início de 2016.

Desde 2022 o Monitor do Debate Político no Meio Digital (popularmente conhecido como Monitor da USP) passou a atuar na contagem de grandes públicos usando uma metodologia distinta: via drones para tirar fotos aéreas em alta resolução e processando estas em software de contagem. Um diferencial inédito: as fotos são disponibilizadas ao público para que qualquer um possa fazer sua própria contagem. Vale lembrar que, pela própria natureza do Monitor, ele faz esta cobertura quase exclusivamente em eventos de motivação política.

Um exemplo dos resultados: em 25 de fevereiro de 2024 houve uma enorme manifestação de apoio em favor de Bolsonaro que, segundo apoiadores, teve 500 mil participantes. No entanto, na metodologia do Monitor da USP, o número foi bem menor: 185 mil, o que gerou grande polêmica entre os seguidores de Bolsonaro (como tem sido a regra entre participantes de qualquer evento cujos números são contestados). E aqui entra um outro participante não mencionado anteriormente: as estimativas da PM.

Nesta manifestação em específico, a PM estimou um público de 600 mil pessoas (só na Av. Paulista; no total, com entorno, seriam 750 mil). Como já mostrei anteriormente, a Av. Paulista dificilmente comportaria isto - só se estivesse lotada como um ônibus no pior horário de ponta a ponta, sem ninguém conseguir se mover. Inquirida sobre a metodologia para chegar a este número, a PM apenas soltou uma nota evasiva.

Chegando em 2026, na semana passada, no pré-carnaval paulistano, ocorreram dois eventos com grande público:

na Consolação, gerou enorme repercussão a suposta presença de 1,5 milhão de pessoas seguindo os blocos, mas a área de 70.000 m2 (entre Av. Paulista e Praça Roosevelt) comportaria no máximo 350 mil foliões, mostrando um absoluto descolamento do que é fisicamente possível. Vale lembrar que a estimativa partiu da Acadêmicos do Baixo Augusta, justamente um dos blocos que desfilaram.

em frente à Assembleia Legislativa, no Ibirapuera, o bloco da Ivete reuniu 1,2 milhão de foliões, segundo estimativa da PM. A área entre o Obelisco e o Monumento às Bandeiras igualmente tem 70 mil m2, que teoricamente comportam um público máximo de 350 mil. O fato de esta estimativa vir da PM lhe dá um certo estofo de autoridade, mas é absolutamente incabível - o que considero até mais grave, pela responsabilidade e imagem que a PM carrega.

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Essa tradição remonta a casos antigos como o show de Rod Stewart em Copacabana no Réveillon de 1994, que entrou para o Guinness com uma estimativa entre 3,5 e 4,2 milhões de pessoas baseando-se apenas em dados da prefeitura, o que exigiria uma densidade irreal em toda a extensão da praia e calçadões, algo que nunca foi documentado.

Mas estimativas freestyle não são exclusividade brasileira. O famoso show de Simon e Garfunkel no Central Park em 1981 entrou para a história por supostamente reunir 500 mil pessoas na plateia. Esta estimativa caiu por terra quando, num show aberto ao público do Bon Jovi no mesmo local, os organizadores decidiram contar o público - para sua surpresa, estavam lá pouco mais de 48 mil pessoas.

Apesar de visualmente ser impressionante, um mar de gente, era uma fração do que se imaginava ser a capacidade do local. Alguém com bom senso se deu conta do óbvio: a área daquele gramado é de cerca de 40 mil m2 - é fisicamente impossível comprimir 500 mil pessoas lá. Sim, por incrível que pareça, todo o histórico anterior àquele show do Bon Jovi no Central Park fora baseado em chutes.

Então fica a mensagem: nunca confie nas estimativas de público de grandes eventos divulgadas por organizadores (sejam eles o poder público ou entidades privadas). Eles não têm compromisso com a verdade. Infelizmente a PM, a despeito de geralmente estimar números um pouco mais comedidos que os dos organizadores, também tem um longo histórico de estimativas impossíveis.

Por outro lado, a iniciativa de entidades independentes como o Datafolha na década passada e o chamado Monitor da USP nesta década em tirarem estes números do terreno do fantasioso para trazê-los de volta ao mundo do factível é louvável e merece ser imitada e ampliada.

Adendo: devido ao histórico de números exagerados, tendemos a achar que eventos abertos ao público com 50 mil ou 100 mil participantes seriam flopados. Temos de recalibrar nossa percepção, porque estes são, sim, números impressionantes.

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