Notícia | Fraude na Previdência, supersalários, Caiado no PSD: documentário resgata clima da redemocratização
Debates sobre liberdade, fraude na previdência, crise dos yanomamis... poderia ser um dia comum no noticiário atual, mas os temas foram abordados em entrevistas com autoridades no final dos anos 1980 e início da década de 1990.
O projeto “Cenas da Redemocratização”, da Fundação Fernando Henrique Cardoso, recuperou e digitalizou 126 fitas VHS do programa “Vamos Sair da Crise”, apresentado pelo jornalista Alexandre Machado na TV Gazeta.
O acervo e os nove minidocumentários serão lançados em 23 de fevereiro pela Fundação Fernando Henrique Cardoso, em um evento com debates sobre democracia. A Coluna teve acesso ao conteúdo com exclusividade.
O contexto no Brasil era de reabertura política, redemocratização e crise inflacionária. As 200 horas de gravações resultaram em 2 mil páginas de conteúdo escrito. As entrevistas foram conduzidas entre os anos de 1989 e 1991, uma época de muita incerteza. “Estava muito próximo da abertura e as regras não eram muito claras. O programa era um dos únicos com debates diários. Por isso, essas imagens são praticamente únicas e inéditas”, ressalta Alexandre Machado.
Dos nove minidocs, três abordam trechos das entrevistas realizadas com candidatos à presidência em 1989, a primeira eleição direta depois da ditadura militar. Os postulantes ao Palácio do Planalto incluem Fernando Collor de Melo, Luiz Inácio Lula da Silva, Ulysses Guimarães, Roberto Freire, Ronaldo Caiado, Leonel Brizola, Mário Covas, Guilherme Afif, Paulo Maluf e Aureliano Chavez.
O lançamento do projeto em ano eleitoral foi uma coincidência bem-vinda, segundo o presidente da Fundação, Sergio Fausto, “porque o projeto nos faz lembrar que a democracia é uma obra de muitos e que o debate civilizado entre quem pensa diferente é a argamassa que a sustenta”.
Em uma das entrevistas resgatadas, o então senador Fernando Henrique Cardoso menciona dois escândalo: os “marajás” - funcionários com supersalários - e as fraudes na previdência na Era Collor.
Lá atrás, FHC diz que os casos de corrupção levaram à descrença da população no governo: “A população não quer saber de político, de política, de governo, porque parece que tudo é sujeira”. Pula para 2025 e 2026 e... o Brasil ficou chocado com os descontos irregulares de aposentados e pensionistas por associações e sindicatos e, recentemente, uma queda de braço começou em Brasília pela manutenção - ou derrubada - dos penduricalhos, que fazem servidores ganharem salários acima do teto constitucional.
Dom Evaristo Arns debate a recém adquirida liberdade e vai além: defende a liberdade social, econômica, política e religiosa. “Em todos os terrenos precisamos ter essa liberdade, sempre resguardando a liberdade dos outros, ou melhor, fazendo crescer a liberdade”, diz, ao defender uma polícia preventiva, e não repressiva, e que todos tenham acesso à condições financeiras.
Ainda tem José Serra classificando o PSDB como passando por “fase de reorganização”, e Ronaldo Caiado, recém filiado ao PSD, concorrendo à presidência da República.
Os embates entre povos indígenas e o garimpo legal estavam no auge. A Constituição de 1988 garantiu o direito de povos originários, mas não impediu o avanço de garimpeiros. Um jovem Ailton Krenak diz: “Estamos pensando como vamos educar uma sociedade agressiva, ignorante e na maioria das vezes cega em relação a quem está diante de si para conviver com populações que tem uma experiência de sociedade muito anterior a 1500”.
O lançamento dos minidocumentários e do acervo ocorre no dia 23 de fevereiro, na sede da Fundação Fernando Henrique Cardoso, no centro da capital paulista. Na ocasião, serão realizados debates com a presença de nomes como Alexandre Machado, Eliane Catanhêde, Fernando Gabeira e Sergio Fausto.
