“Tombou” o senhor da palavra
Ontem tombou o senhor da palavra e com ele parece ter-se abatido uma espécie de silêncio estranho sobre a língua portuguesa, como se durante algumas horas as frases tivessem perdido a coragem de continuar; morreu António Lobo Antunes e a notícia espalhou-se com aquela gravidade que só acompanha os que, durante décadas, moldaram a forma como um país pensa, sente e recorda, porque Lobo Antunes não foi apenas um romancista de enorme talento, foi uma consciência literária, uma voz que atravessou a segunda metade do século XX e entrou pelo século XXI interrogando Portugal, a memória, a guerra, a infância, a culpa, o amor e a própria linguagem; quando ele escrevia parecia que a língua estava a ser inventada naquele instante, não como quem a utiliza, mas como quem a abre, a torce, a espreme e a faz dizer aquilo que antes parecia impossível, e por isso muitos leitores tiveram primeiro de aprender a respirá-la, a caminhar pelos seus períodos longos e sinuosos, a aceitar que a literatura pode ser menos um caminho reto e mais um labirinto onde as vozes se sobrepõem, se interrompem e regressam, como acontece na memória humana. Ao longo de décadas, Lobo Antunes construiu uma obra que não se contentou em contar histórias, preferindo antes desmontar o próprio ato de narrar, transformando cada romance numa espécie de escavação emocional, em que as personagens não falam apenas do que lhes aconteceu, mas também do que lhes pesa, do que lhes........
