“Ditos” & “Feitos”
A psicanalista, Dalva Silva, que se dedica ao estudo da influência sobre os outros, diz o seguinte: “os manipuladores da mente utilizam uma variedade de estratégias para influenciar e controlar as decisões das pessoas. A manipulação emocional, a chantagem, o gaslighting são as principais”.
Escolhi, para introito deste texto, uma estudiosa das questões do foro da psicanálise não só para que o pessoal reflita sobre tudo quanto ouve e lê, como não seja alvo de manipulação de quem está interessado em produzir nele esse efeito. E, embora sem pretender invadir a área dos especialistas na matéria, atrevo-me a dizer que nos tempos que correm é preciso ter alguma capacidade de interpretar o sentido das palavras e não engolir tudo – ainda que sob juras de verdade e isenção –, sem uma prévia análise.
Esta sugestão vem a propósito de tudo aquilo que é trazido à liça por uma chusma de ‘opinion makers’, sobretudo em períodos eleitorais. Nessa altura, há como que um borbulhar de intenções em condicionar a opinião pública com as mais estapafúrdias preleções acerca dos perigos para o regime democrático. Em que os seus arautos se servem do termo de comparação entre os tempos que correm e os d’outrora, como se o mundo deixasse de pular e avançar, caso não tivesse ocorrido determinado pressuposto político.
Pois bem, chegados ao período quaresmal acho ser a altura ideal para serenar os recalcamentos e o ódio a um passado que foi o que foi e que ninguém deseja, nem poderá voltar. Evitando transmitir às novas gerações o seu historial de forma enviesada. Pelo que se não for usado o “princípio da hermenêutica”, isto é, de situar as coisas no tempo delas – tal como aconselhava o saudoso Papa Francisco – é não entender nada, de nada.
Daí, poder-se afirmar com toda a convicção que em certos períodos da nossa História, para além das guerras, foram cometidos crimes tenebrosos sobre alguns cidadãos e coartada não só a liberdade, como a democracia à população em geral. Algo por demais escalpelizado e condenado ao abrigo da Carta dos Direitos Humanos. Contudo, quase sempre é ocultada a “outra face” da moeda, ou seja, excluído do discurso dominante os bens importantes que nos foram legados pelos nossos antepassados.
Ou será que nos tempos que antecederam abril de 74, os governantes e os portugueses andaram todos a dormir, deixando Portugal a zero? Claro que não. Só que há uma certa leva de populistas que passou a sofrer de amnésia e cegueira por interesses pessoais, ignorando o património que eles nos legaram, a saber: Castelos, Palácios, Hospitais, Universidades, Escolas, Tribunais, Estradas, Pontes, Aeroportos, Transportadora Aérea, Estações, Ferrovia, Quartéis, Bases Aéreas, Cais marítimos, Estaleiros Navais, barragens, Estâncias Balneares, Monumentos, Museus, Bibliotecas, Cineteatros, Estádios, etc., não só cá, como nas Ilhas e ex-colónias.
Tudo executado com ferramentas rudimentares e sem os milhares de milhões de euros que a União Europeia, há alguns anos, nos vem concedendo. Contudo, alguns desses bens patrimoniais, por nós herdados, são hoje os admiráveis ex-libris do país. A que acresceu uma fortuna de mais de700 toneladas em barras d’ouro, depositada no BP.
Ora, há que dizer o que muitos pensam, mas calam. Isto é, afirmar que só por desonestidade intelectual, facciosismo ideológico, ou para escarnecer do passado, se relevam os “ditos”, e nunca os “feitos”. Sendo uma forma de convencer o povo com a ‘parvoíce’ de que em outras épocas – inclusive na dos nossos monarcas – não havia computadores, smartphones, televisão (a cores), bólides (que hoje vemos por aí), nem outras mais recentes modernices.
Por isso, julgo não ser despiciendo pensar-se que um dia virá uma outra geração acusar de intrujões não só tais iluminados, como os que andam para construir um único Aeroporto há mais de 50 anos e nada. É que dantes falava-se pouco, mas fazia-se muito. Agora discute-se à fartazana e até o TGV virou miragem.
