Hermenêutica da suspeita: a lucidez necessária diante dos populismos
Os populismos surgem com aparência sedutora: dizem falar em nome do povo, denunciam elites, prometem devolver voz aos esquecidos e afirmam defender a verdade contra os poderes instalados. Tudo parece simples e transparente. Contudo, é aí que a hermenêutica da suspeita se torna indispensável. Quando um discurso se proclama puro e redentor, a inteligência democrática deve perguntar que interesses, ressentimentos e estratégias de poder se escondem nessa encenação de autenticidade.
A expressão “hermenêutica da suspeita”, associada a Paul Ricoeur, designa uma interpretação que não se contenta com o sentido aparente das palavras. Não pergunta apenas o que está a ser dito, mas quem beneficia, que inimigos fabrica, que medos mobiliza e que domínio legitima. Aplicada aos populismos, mostra que a invocação do povo pode esconder a redução da sociedade a uma massa homogénea e obediente, conduzida por uma liderança que se apresenta como sua única intérprete........
