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A inocência implacável do mercado

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28.03.2026

Fala-se do mercado com uma solenidade quase litúrgica. O mercado sabe, o mercado corrige, o mercado ajusta e o mercado recompensa. E, se for preciso, o mercado também absolve. Há, nesta confiança, qualquer coisa de enternecedor: depois de séculos a desconfiar de ídolos visíveis, acabámos por nos ajoelhar diante de um invisível, tanto mais venerado quanto mais abstrato. É uma divindade discreta, sem rosto e sem voz, mas com um raro talento para decidir o preço das coisas e, pouco a pouco, o valor das pessoas.

O traço mais notável desta nova realidade económica não está apenas na sua força, mas na sua delicadeza. O mercado já não se apresenta como um poder bruto. Prefere insinuar-se como evidência. Não impõe: persuade. Não agride: organiza. Não domina: otimiza. Vai-nos convencendo, com admirável mansidão, de que a vida humana se compreende melhor quando traduzida em desempenho, utilidade, vantagem, incentivo e retorno. O que não entra neste vocabulário começa a parecer sentimental, ineficiente ou suspeitamente inútil.

Talvez a sua obra mais subtil tenha sido a deslocação do........

© Diário do Minho