Por Entre Linhas e Ideias
Somos realmente donos de alguma coisa? Quero, esta semana, refletir convosco, leitores do Diário do Minho, sobre aquilo a que estamos a assistir no atual cenário internacional, marcado por tensões, conflitos e pela normalização de discursos que reclamam superioridade como se fosse legítimo afirmar que alguns têm mais direito do que outros a decidir o destino comum. Porque, se olharmos com atenção, percebemos que por detrás de muitos discursos de ódio que hoje proliferam está quase sempre a mesma ideia de que alguém pode afirmar-se superior e reclamar o direito de dominar os outros.
Desde logo, o mito da Torre de Babel ajuda-nos a compreender esta tentação humana. Este mito conta-nos que os homens ao desejarem construir uma torre que tocasse o céu, procuravam afirmar grandeza, como se pudessem ultrapassar os limites da sua própria condição. Contudo, a fragmentação das línguas desfaz o projeto comum e revela que a ambição sem medida conduz à rutura do espaço partilhado. Esta história permanece como imagem de uma humanidade que, ao querer elevar-se acima do seu limite, perde a capacidade de convivência.
Chamo a atenção dos nossos leitores que, por outro lado, torna-se bem visível a pretensão de alguns senhores se proclamarem arautos de uma suposta melhor condição humana, como se lhes coubesse definir quem representa o bem e quem deve submeter-se. Essa convicção de superioridade moral, quando aliada ao poder político ou militar, transforma-se facilmente em abuso de poder. Se olharmos para a história, já no passado conhecemos projetos que prometiam ordem e grandeza e que acabaram por gerar genocídio e sofrimento, razão pela qual os tempos de inquietação que hoje vivemos devem ser lidos como um alerta. A segurança que julgávamos sólida revela-se frágil e a história mostra que nenhuma sociedade está imune (nós não estamos a salvo) ao regresso de lógicas autoritárias quando se banaliza a ideia de que alguns valem mais do que outros.
Neste contexto regressa a questão sobre o que realmente nos pertence. John Locke defendia que cada pessoa é proprietária de si mesma e que o corpo é a primeira forma de propriedade. No entanto, quando pensamos com mais atenção, percebemos que não temos um corpo como quem possui um objeto. Somos corpo, somos essa presença concreta e vulnerável no mundo. O corpo é aquilo através do qual vivemos, sentimos e nos relacionamos, mas é também aquilo que sofre, envelhece e acaba. Mesmo essa ilusão de posse é limitada e passageira.
Deste modo, a ambição de dominar territórios, culturas ou consciências revela-se paradoxal, pois nem sequer possuímos de forma definitiva aquilo que somos fisicamente. Tudo o que acumulamos permanece quando morremos e qualquer pretensão de poder absoluto choca com a evidência da nossa vulnerabilidade. Ainda assim, persistimos nesta ânsia de domínio que transforma diferenças em conflitos e vidas humanas em sofrimento.
Quero trazer à colação o filósofo John Rawls, que propôs o exercício do véu de ignorância, convidando-nos a imaginar a organização da sociedade sem sabermos que posição nela iremos ocupar. Se desconhecêssemos a nossa origem, condição económica ou religião, dificilmente aceitaríamos princípios que legitimassem a exclusão ou a inferiorização de outros. A igualdade surge, assim, não como ingenuidade, mas como escolha racional perante a incerteza da nossa própria condição. É precisamente dessa consciência que nasce a necessidade de preservar os direitos humanos e de proteger a condição humana como valor inegociável, independentemente da cultura, da crença ou do lugar que cada um ocupa no mundo.
É neste ponto que a educação assume especial relevância. A educação será a via para resolver este problema e pela minha experiência enquanto professor tenho constatado como o projeto pedagógico de Filosofia para Crianças, desde os primeiros ciclos de ensino, contribui para formar futuros decisores mais conscientes e capazes de fundamentar as suas posições sem recorrer à exclusão. Este projeto pedagógico é uma prática de democracia, um treino de respeito pela diferença e uma defesa concreta dos direitos humanos, porque ensina que o espaço do outro não nos pertence e que a dignidade não depende da força.
Convido os leitores do Diário do Minho a parar um momento e pensar comigo nas palavras que escolhemos, nas atitudes que normalizamos e no legado que queremos deixar.
- Afinal, que mundo queremos deixar aos que virão depois de nós?
