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OS DIAS DA SEMANA “Cada um tem a sua própria Etty”

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22.03.2026

Etty Hillesum teve uma vida balizada por duas guerras mundiais. Nasceu quando a primeira começou, a 15 de Janeiro de 1914, e morreu durante a segunda, no dia 30 de Novembro de 1943. A jovem de Midelburgo, Países Baixos, morreu na Polónia, em Auschwitz, partilhando o destino de muitas famílias judias inteiramente exterminadas pelo Holocausto. Não chegou a celebrar 30 anos de vida. Tornar-se-ia uma figura espiritual muito admirada por causa de um diário que escreveu entre 1941 e 1943 e que apenas seria publicado 40 anos depois de ter começado a ser escrito. A obra, que teve uma enorme repercussão, foi traduzida em inúmeras línguas. Em Portugal, o Diário seria editado em 2008 pela Assírio & Alvim.

“Cada um tem a sua própria Etty”, afirmou o cineasta israelita Hagai Levi, numa entrevista concedida há dias à revista francesa Les Inrockuptibles, a propósito da exibição da série Etty no Festival Séries Mania, em Lille, ontem, hoje e amanhã. A seguir, será o canal franco-alemão ARTE a difundi-la [1].

A Etty Hillesum de Hagai Levi recusava-se a ver a vida sob apenas um ângulo. “Há ideias cristãs no seu diário, mas ela era judia e também tinha proximidade com práticas religiosas orientais”. Para o cineasta, o principal na rapariga judia é ter sido uma “pessoa que quis viver segundo um princípio de solidariedade”. Esta ideia de solidariedade parece-lhe muito premente. A pergunta do entrevistador, Olivier Joyard, é expectável: “Com quem é que gostaria de se solidarizar hoje, enquanto artista?”

Hagai Levi gostaria de começar por se solidarizar consigo próprio “no espírito de Etty Hillesum”. A seguir, “com os grupos de pessoas que, aqui em Israel, lutam contra o governo, contra o fascismo e a guerra, pelos Palestinianos e pela democracia”, algo que o cineasta diz mobilizar centenas de milhares de pessoas. Representam, acrescenta ele, “uma pequena minoria” que pratica “uma resistência muito empenhada”.

Também o Papa Leão XIV tem a sua Etty Hillesum. No dia 8 de Março, no 3.º Domingo da Quaresma, Leão XIV evocou-a, durante o Angelus, na Praça São Pedro [2]. Jesus “é a resposta de Deus à nossa sede”, afirmou o Papa a propósito do diálogo entre Jesus e a mulher samaritana. Lembrou então a jovem judia: “Às vezes – escrevia a jovem Etty Hillesum no seu diário – consigo alcançá-la, mas frequentemente ela está coberta por pedras e areia: Deus está, então, sepultado. É preciso, por isso, voltar a desenterrá-lo”.

O Diário de Etty Hillesum testemunha a aprendizagem interior de um modo de viver numa espécie de plenitude espiritual em tempos de hostilidade e terror. No interior da tragédia para a qual será convocada, Etty Hillesum percorre um caminho em que procura corresponder à incitação de Jesus Cristo para que cada um não se preocupe com o dia de amanhã, “porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema” [3]. A jovem judia descobre que não se deve querer as coisas, mas deixá-las acontecer. Aprende a ter, diariamente, uma hora de paz e a viver cada momento como se fosse o último. Etty Hillesum propõe-se enfrentar a adversidade, metamorfoseando-a. Repete que a vida é bela. Diz que se Deus não a ajudar, irá ela, nesse caso, ajudar Deus: “Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares, apesar de eu não poder garantir nada com antecedência. Mas torna-se cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar, e ajudando-te, ajudamo-nos a nós próprios. E esta é a única coisa que podemos preservar nestes tempos, e também a única que importa: uma parte de ti em nós, Deus. E talvez possamos ajudar a pôr-te a descoberto nos corações atormentados dos outros. Sim, meu Deus, quanto às circunstâncias, pareces não ter lá grande influência sobre elas, é ‘evidente que fazem parte indissolúvel desta vida.’ Também não te chamo à responsabilidade por isso; tu é que podes mais tarde chamar-nos à responsabilidade. E quase a cada batida do coração, torna-se-me isto mais nítido: que tu não nos podes ajudar, que nós devemos ajudar-te e que a morada em nós onde tu resides tem de ser defendida até às últimas” [4].

[1] Olivier Joyard – “Hagai Levi sur ‘Etty’: ‘Je ne pouvais pas considérer l’Histoire comme un récit du passé’”. Les Inrockuptibles, 13 de Março de 2026

[2] Silvonei José – “Papa Leão XIV: Jesus é a resposta de Deus à nossa sede”. Vatican News, 8 de Março de 2026

[4] Diário 1941-1943. Assírio & Alvim, 2008 (pág. 251-252)


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