Sinais de Páscoa
Está patente, no Palácio do Raio, uma exposição a que o artista João Osvaldo atribuiu o título “Jesus, fermento da vida”. Na abertura, entre outras explicações, referiu que, em quase todos os quadros, colocou conscientemente uma romã, que gostaria que fosse “símbolo da humanidade”.
A romã tem, para mim, um significado muito especial. Escolhi-a como sinal do que gostaria de ter concretizado na minha vida episcopal: “Ut omnes unum sint” – que todos sejam um.
Na proximidade da Páscoa, nesta Semana Maior, recordo que Cristo encarnou para realizar a unidade entre todos e morreu indicando o caminho.
A romã, enquanto símbolo, sublinha a diversidade dos frutos, mas manifesta a harmonia do conjunto. Há diversidade, mas também integração harmónica.
Quando isto acontece como testemunho, na Igreja e nos diferentes âmbitos da vida cristã, a unidade, na linguagem do artista, torna-se “fermento” que permitirá, mais tarde ou mais cedo, a concretização de um mundo unido. Pode parecer utopia, mas a vivência quotidiana comprova-o.
Na Semana Santa, percorrendo os passos de Jesus, deveríamos, em primeiro lugar, reconhecer que só Cristo realizará este milagre da unidade. Ele fê-lo historicamente através da sua presença no mundo.
Tudo na sua vida é testemunho. Passou o dia a dia fazendo o bem e oferecendo a vida: “Ninguém me tira a vida; sou Eu que a dou” (Jo 10,18). Mais tarde, a morte foi decretada pelas autoridades romanas, mas livremente oferecida, “amando os seus até ao fim”. Morre como Salvador e Redentor da humanidade.
São Paulo soube interpretar e acolher este exemplo: “A vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e a si mesmo Se entregou por mim” (Gal 2,20). Morreu pelos nossos pecados e pelos de toda a humanidade (1 Cor 15,3).
Esta é a grande notícia da Paixão e Morte de Cristo: Ele morreu por mim. Devo tomar consciência de que sou amado por Ele, não através de meros sentimentos ou palavras, mas pela entrega da sua vida.
O Papa Francisco sublinhou isso mesmo na sua Carta Encíclica Dilexit nos (Amou-nos), sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus: “Aniquilou-Se”, perdendo a vida para que todos tenham vida.
A cruz deve ser fermento de uma humanidade curada pelo amor. Jesus “tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas dores” (Mt 8,17), ensinando-nos a prestar mais atenção ao sofrimento e às necessidades dos outros e tornando-nos suficientemente fortes para participar na sua obra de libertação, como instrumentos de difusão do seu amor.
Se contemplarmos a entrega de Cristo por todos, torna-se inevitável perguntarmo-nos por que razão não somos capazes de dar a nossa vida pelos outros (Dilexit nos, 171).
Este enquadramento foi proposto à Igreja pelo Papa Leão XIV, quando nos ofereceu a Dilexit te. São dois ensinamentos complementares e inseparáveis.
Não somos discípulos da cruz isoladamente: amados, vivemos para amar, e assim acontece, permanentemente, a Páscoa, da qual vivemos.
A morte foi passagem e torna-se estilo de vida, na coragem e na indignação perante tanto sofrimento. A lógica do Calvário, numa alquimia divina, faz com que a ressurreição aconteça.
“Contemplar o amor de Cristo” ajuda-nos a prestar mais atenção ao sofrimento e às necessidades dos outros e torna-nos suficientemente fortes para participar na sua obra de libertação, como instrumentos de difusão do seu amor (Dilexit te, 2).
Na Paixão de Cristo, Deus mostra-nos, de forma mais alta e nova, algo que vale mais do que a dor: o amor aos outros, em forma de misericórdia; o amor que faz alargar os braços e o coração aos miseráveis, aos pecadores arrependidos, aos mendigos, aos dilacerados pela vida. Um amor que sabe acolher o próximo tresmalhado, amigo, irmão ou desconhecido, e lhe perdoa infinitas vezes. E a caridade supera a dor, porque a dor pertence unicamente a esta vida, enquanto o amor perdura eternamente.
Somos discípulos de um Cristo vivo e ressuscitado. Somos amados e vivemos para amar e, por isso, responsáveis por colocar o Amor no coração da sociedade.
A romã é símbolo da humanidade, e Cristo ressuscitado é “fermento” de um mundo que deve ser fraterno, justo e igual. Por isso, são necessários sinais de Páscoa, que surgirão através de um amor operativo e silencioso.
Os pequenos gestos de doação aos outros são flores a plantar no coração da humanidade, na certeza de que permanecerão sempre abertas, porque, como flores, souberam morrer.
