Pessoas “mais ou menos”
“As pessoas vivem para admirar as alturas, as ondas do mar, o percurso dos rios, o domínio dos oceanos, o movimento das estrelas e no entanto elas passam por si mesmas sem se admirarem”. (Santo Agostinho).
Na verdade, vivemos um tempo de pouca realidade, confusos e talvez distraídos com o que se passa de verídico connosco e à nossa volta. Preocupamo-nos com atitudes e pensamentos fúteis que nos molestam, consomem e nos fazem passar as horas mais importantes do dia, à deriva.
Viver, na verdade, é das coisas mais difíceis do mundo. Existem milhões de pessoas que nunca viveram, apenas existem. O homem vive, no tempo que passa, desorientado, porque também recusa os ensinamentos do bem e dos génios que ensinam a elevar o homem.
Vivemos em estado de defesa, culpando (tantas vezes) os outros de ignorância, de incompetência, de bons receptores da treta e não somos capazes de estar presentes para ver, de procurar cultura, de ser capazes e de verificarmos com toda a verdade como somos e como agimos para nos elevarmos e elevar os outros.
Se se pudesse ver o que provocam as sãs palavras em nós e nos demais, começaríamos a observar os pensamentos, os silêncios, os sons e os ruídos, porque neste oceano de energia que somos, cada onde que se emite, cria ondas de diversas cores, influenciando os demais.
Razão porque constantemente se afirma que o homem é grande mistério. Nele, podem conhecer-se as boas e más acções, pensamentos baixos ou elevados, as barbaridades mais desapiedadas, mas, também o homem, pode ser pessoa de actos heróicos, nobres e demais virtudes.
Tantas vezes culpamo-nos e noutras apresentamo-nos como inocentes, humildes sem humildade e com receio de que num abraço nos cravem um punhal nas costas. Temos medo de que nos peçam apoio e como enguias viscosas, mais ou menos sorrimos. Fugimos de quem não se compara a nós na vida social, no trabalho e por vezes não somos verdadeiramente familiares da nossa família.
Também existem aqueles que vivem submersos: atabalhoadamente, sem sorte, sem uma estrela ou um ideal que oriente. Logo, é importante ser-se corajoso, estar atento, interessado e fazer força para respirar. E quem assim proceder, nunca terá ondas que o abalroem ou afoguem.
A vida, a vivência e o comportamento do homem tem mais êxito se, pensada. E pensar é um excelente trabalho. Vale mais parar para pensar do que pensar pouco ou a correr. É que os tombos deixam mossa e a vida tem de ser lisa como o vidro e bonita como o arco-íris.
A vida do homem que se preze, apenas terá valor se ela comporta desafios, trabalho, inteligência, doação, solidariedade, comunhão, etc. A vida daqueles que é alicerçada no mais ou menos, no facilitismo, no logo depois se vê, ou que viva pendente do que sobra dos outros, não tem sentido e, serão sempre vidas que não passarão de vidinhas mornas e de pessoa mais menos, e nunca do mais.
A vida do homem com valor terá sempre o bom da vida, o mau da vida, o prazer da vida e a dor da vida. Homem que não dá valor ao naco de pão que come…, ou não o semeou, ou lho deram ou usou de rapacidade para o adquirir. Ora isso é desvalor.
Queixamo-nos tantas vezes que ninguém faz nada; que ninguém sabe nada; que ninguém sabe trabalhar; que ninguém tem capacidade de luta e de sofrimento.
Cabe aos mais capazes ensinar e fazer. Cabe aos mais sábios transmitir ânimo e a cultura da realidade, da paciência, para, desse modo elevar, promover os nossos mais próximos.
E se o homem de hoje é menos capaz, e se o homem é só mais ou menos capaz – colocando-o bem a nosso lado – recordemos-lhe que na vida de qualquer um há o verão, o inverno, o dia e a noite, a tristeza e a felicidade, o desconforto ou o conforto vivencial.
A vida séria e responsável de todo o homem, jamais poderá ser de “mais ou menos”!
Podemos pensar que o futuro será mais ou menos; podemos dizer que tudo em nós está mais ou menos ou tudo caminha mais ou menos. Mas nunca devemos amar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, assumir os próprios erros mais ou menos e ter fé mais ou menos.
Se a nossa personalidade e carácter for (só) mais ou menos, não passamos de pessoas mais ou menos.
