Será maldição ‘ser velho’, em Portugal?
Em três anos houve mais de setecentos casos de morte de “velhos” de surpresa e isto verifica-se num país, envelhecido na população e, sobretudo, na mentalidade. Os casos sucedem-se sem que nada seja feito, na teoria nem na prática, ao perto ou ao longe, com pessoas anónimas ou com figuras mais conhecidas…
1. Segundo algumas visões mais dramáticas, Portugal vive uma crise social que roça uma espécie de crise moral. Um país que não sabe cuidar dos seus idosos não está a construir futuro, mas apenas a gerir, de forma titubeante, um certo presente. Uma coisa é não ter soluções. Outra, bem diferente, é não ter ambições. Portugal dá a impressão que abdicou da ambição de cuidar.
2. Numa visão algo paternalista – à semelhança do regime do ‘estado novo’ – quem tem as rédeas do poder parece querer vincular a família ao cuidado dos idosos como a vincula ao cuidado das crianças. Pode parecer um dever lógico, mas um idoso não é uma criança porque um tem uma vida cheia, enquanto a outra ainda não tem vida significativa: uma criança é vazia de passado, um idoso carrega uma longa história. É verdade que muitos dos velhos pagam a fatura do egoísmo e da injustiça social, do afastamento estratégico, da desarmonia familiar. Mas também é verdade que muitos desses idosos participaram, ao longo da vida, na desconstrução desses laços. As famílias são feitas de histórias e nem sempre essas histórias aproximam… as diversas gerações.
3. Mas será que o Estado não tem a obrigação moral de cuidar de todos, a especialmente dos mais velhos? Com o que vemos nas propostas para com as várias gerações não vemos mais atenção dada às crianças e aos mais novos do que aos mais velhos? As ‘políticas sociais’ não atendem mais aos que ainda não deram nada pelos outros do que àqueles que se gastaram pelos outros, podendo nada receber em troca? Não vemos investir mais nos espaços dedicados às crianças – creches, jardins de infância e ocupação dos tempos livres – do que nos centros de dia ou de convívio ou nos lares (eufemisticamente ditos de ‘estruturas residenciais para idosos’ – erpi) e até no entretenimento infantilizado dos velhos? As comparticipações estatais para uns (novos) e outros (velhos) não serão quase vergonhosas, tendo em conta os recursos, as motivações e mesmo as convicções? Fica um número para pensar: cada idoso, em ‘erpi’, tem o custo médio mensal de mil e setecentos euros… uma criancinha – por muito bem tratada que seja – rondará um terço dessa verba. Por isso, o Estado alheia-se deste setor sénior…
4. O Estado tem obrigação moral – política, social e cívica – de cuidar de todos os cidadãos, mesmo quando a família não aparece. Efetivamente, cada idoso foi, para o Estado: fonte de votos, de receita, de impostos, de emprego… Há nitidamente uma dívida estrutural do Estado, goste o Estado ou não daquele idoso. Cada vez mais podemos e devemos compreender que o Estado tem a obrigação estrutural de apoiar quem cuida independente de ser família ou não… Devemos ter em conta as associações e coletividades, públicas, privadas ou da economia social que o fazem, com bastantes custos e poucos recursos.
5. Mais do que visitas de propaganda em tempo eleitoral a lares de idosos, é essencial colocar na agenda de todos – mais cedo do que tarde estaremos nessa fase da vida, assim tenhamos longevidade – quantos vivem este tempo. Precisamos de encontrar formas e jeitos de não cairmos na vaga do descartável, cuidando e sendo cuidados com estima e respeito. À semelhança do ‘serviço nacional de saúde’ crie-se um ‘serviço social nacional’ focado nas carências dos mais velhos, articulado com as famílias e quem profissionalmente tem esse trabalho…
6. Na Bíblia faz-se referência à experiência dos mais velhos (anciãos) – ‘os cabelos brancos são uma coroa de glória, a qual se encontra no caminho da justiça’ (Pr 16,31) – como respeito pela bênção de uma longa vida, alicerçada em Deus. Não será de colocar Deus na velhice de tantos dos nossos familiares e praticantes da fé? Temos-lhe dado o devido consolo, nas horas de provação e de achaques? O isolamento e a solidão matam mais do que parece…
