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Eu me confesso… sem pecados

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23.03.2026

Se considerarmos a Quaresma como o tempo pessoal e comunitário propício para a celebração do sacramento da Penitência e reconciliação podemos ter vários níveis de entendimento, de avaliação e de vivência. Atendendo ao ‘público’ – deveríamos dizer fiéis – que ainda se abeira deste sacramento corremos o risco de sermos confrontados com múltiplas reações, desde as mais simplistas até às mais complexas e confusas, sem esquecer a possibilidade de que quem se confessa (quase) não tem pecados e ainda de que quem tem pecados raramente se confessa.1. Quase numa nota prévia à abordagem deste tema nada tem em referência com as circunstâncias de ‘ouvir de confissão’ nem sequer da possível interpretação de que esta faceta do ministério sacerdotal nem sempre é bem entendida pelos penitentes nos diferentes âmbitos, posturas ou vivências. De ter ainda em conta a crescente diminuição da prática deste sacramento da Penitência, com diversas razões, explicações ou mesmo desculpas.2. Colocadas estas balizas de teor prático e quase de índole de demarcação do espaço desta intervenção colocamos a perspetiva na necessidade humana, espiritual, religiosa e eclesial do sacramento da Penitência e reconciliação. A designação deste sacramento no quadro da doutrina da Igreja católica e no concreto do catecismo da mesma Igreja, vemos que ele se situa na designação dos ‘sacramentos da cura’ e como referência ao sacramento do batismo. Com efeito, no sacramento da Penitência vemos uma ‘segunda tábua de salvação’, recuperando a graça batismal que o pecado. «O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. Foi definido como ‘uma palavra, um ato ou um desejo contrários à lei eterna’» (Catecismo da Igreja Católica, 1849).3. Será que muitos dos ditos ‘pecados’, que grande parte das pessoas se confessam serão de verdade ‘pecados’? ‘Falar mal’ – entendido como dizer palavrões, numa cultura popular e de incidência regional – será sempre pecado ou antes mera falta de educação e de respeito? Nalgumas circunstâncias não poderá haver ‘palavrões’ proferidos (saídos da boca) com malícia ou mesmo ira e raiva? Não obedecer aos pais terá o peso de ‘pecado’ – como dizem, muitas vezes, os mais novos – ou revela, antes, falta de espirito de obediência aos mais velhos, como pais, professores e legítimos superiores? ‘Faltar à missa’ será mesmo pecado no sentido em que algumas pessoas dizem ou não será antes a revelação da falta de uma adequada formação eclesial, de deficiente formação de pertença à Igreja e àqueles mais próximos com quem celebramos a fé?4. Há matérias que raramente aparecem na acusação – é uma das etapas da celebração do sacramento dito por antonomásia de confissão – da maioria dos nossos penitentes. Breves exemplos de pecados que escapam à confissão. Temas como a relação com o dinheiro e os bens materiais, desde a ambição até à gestão e passando pela correta aquisição. Matérias de índole sexual, tanto no trato de cada um consigo mesmo, como na relação com os outros, sejam mais novos ou mais velhos, do mesmo de outro sexo. Questões do âmbito da circulação na estrada, desde o cumprimento das regras de trânsito até à velocidade nas vias, quer como peões quer como condutores de veículos. Assuntos da vida profissional, tendo em conta o quadro em que se situam, enquanto trabalhadores nos diferentes patamares de responsabilidade. Que longo e quase inglória role de omissões, isto é, daquilo que não fazemos e devíamos fazer, desde a vida em família até à participação política e o compromisso na vida da Igreja e, nesta, como se aproveitam os momentos de formação e não os de mera índole religiosa mais ou mesmo rotineira...5. Em tempos (2003), a conferência episcopal portuguesa apresentou uma lista de sete ‘pecados sociais’ acrescentando-os aos designados de ‘pecados capitais’. Recordemos uns e outros. Pecados capitais: soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça. Pecados sociais:  egoísmos individualistas, pessoais e grupais, consumismo, corrupção, desarmonia do sistema fiscal, irresponsabilidade na estrada, exagerada comercialização do fenómeno desportivo e exclusão social.


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