A (triste) direita portuguesa: um quer governar, outro quer mandar e o terceiro pode querer voltar
Na política portuguesa, os protagonistas, independentemente do espectro político, passam metade do tempo a explicar como salvar o país e a outra metade a discutir quem fica com os louros. Contudo, na direita, o exercício atingiu uma sofisticação notável. Luís Montenegro quer governar sem depender de André Ventura. Por seu lado, Ventura quer condicionar o Governo sem ter de o integrar. Por último, Pedro Passos Coelho, que afirma continuar afastado da política activa, voltou a propor um caminho diferente, que baralha as contas dos dois.
Três protagonistas, três ambições e um problema comum: todos têm uma ideia bastante precisa do que os outros deviam fazer e muito menos clara do que lhes cabe a eles executar.
A politóloga Sílvia Mangerona, numa entrevista à Executive Digest, afirmou ver no discurso e nos sucessivos comentários de Passos Coelho mais do que uma simples divergência de opinião. Para a mesma, o antigo primeiro-ministro critica de forma directa a estratégia de Montenegro e aponta um caminho alternativo. Eu, pelo meu lado, acrescentaria que é também uma maneira pouco subtil de lembrar ao actual líder que a liderança de um partido nunca é tão confortável como parece, sobretudo quando o passado ainda tem pretensões sobre o futuro.
Paralelamente, Montenegro diz que não quer um PSD “acorrentado” ao Chega e a ambição é legítima. Nenhum primeiro-ministro gosta de descobrir, a cada votação, que a sua autoridade depende da boa vontade de quem está na oposição, como qualquer pessoa que já tenha tentado governar uma reunião de condomínio compreende o sentimento.
O problema é que a independência política, quando é negociada voto a voto, deixa de o ser e passa a uma boa descrição de uma dependência. Montenegro quer liberdade de movimentos. Contudo, precisa de parceiros para governar e a aritmética parlamentar não se comove com declarações de autonomia. Resta-lhe construir maiorias a cada momento sem dar a ideia de que depende delas. Falar com Ventura sem lhe entregar o volante, procurar entendimentos à esquerda sem assustar a direita e, finalmente, apresentar-se como um Governo que decide sozinho mesmo quando precisa que os outros o deixem decidir.
É um número de equilibrismo exigente e reconheço que, até agora, Montenegro o tem executado sem cair. Há muitos governos, noutros países, que nem isso conseguem.
Parece-me, não obstante, que o perigo é outro. A flexibilidade só........
