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A democracia prejudicou este país?

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14.04.2026

Faço um (neste caso, raro) disclaimer: faço parte, com honra, de uma família que sempre se opôs à ditadura. O meu tio-avô Francisco Vasconcelos Pestana (que tinha a seu cargo a Companhia de Ordem Pública naquele quartel) e o meu primo Eugénio de Oliveira integraram o movimento que ficou conhecido pela Revolta de Beja e foram presos e perseguidos pelo regime depois disso1. Depois do 25 de Abril de 1974, desta feita pela mão do Copcon, mais concretamente em Maio de 1975, foi a vez de a minha mãe, que estava a encaminhar-se para a Faculdade de Direito, à semelhança de muitos outros militantes, como então Dulce Rocha, Margarida Barroso ou Aurora Rodrigues, ser presa sem culpa formada, todos encaminhados para a prisão de Caxias e aí objecto de tortura,  agressões, inundações nas celas com mangueiras de alta pressão , entre outros2-3. No caso da minha mãe, asmática, posso dizer com propriedade que esses tempos em Caxias pioraram muitíssimo a sua saúde, tendo como desfecho a sua morte, pouco tempo depois, com origem em algo de que nunca recuperou totalmente: o que lhe fizeram, à laia de tortura, enquanto presa política, tendo eu o consolo de, após ter lido os seus diários e cartas, saber que, tal como outras, por exemplo, Aurora Rodrigues, nunca cedeu e não delatou.

Volto a estes tristes acontecimentos, mas simultaneamente enriquecedores porque reveladores de uma coragem que hoje escasseia, após a afirmação feita por Ventura de que haveria mais presos políticos depois do 25 de Abril do que antes. Como já não seria de espantar, a afirmação é falsa.

No final de 1974, estavam presos, segundo o Serviço de Coordenação de Extinção da PIDE/DGS, citado no livro O Essencial sobre a PIDE, de Irene Flunser Pimentel, 1261 ex-elementos da polícia política. Já em Outubro de 1975, estavam presos “1559 indivíduos da ex-polícia política e 184 informadores”4. Sucede que, à semelhança de muitas outras afirmações feitas por Ventura, convém ir mais fundo na procura da verdade dos factos, sendo que, obviamente, o........

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