menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Só Marchionne entendeu a Alfa. Como o pragmatismo (e a falta de bom gosto) quase matou o 'Cuore Sportivo'

20 0
02.08.2026

Apenas uma marca no mundo é capaz de vender, no mesmo catálogo, um modelo de entrada por 30 mil euros e um hipercarro de mais de um milhão e meio. Num extremo do salão, a Alfa Romeo pode expor o Junior, um crossover urbano de segmento B nascido numa linha de montagem comum e, no outro, ostentar o 33 Stradale, uma miragem ultralimitada vendida a um punhado de multimilionários.

A perspicaz observação foi há poucos dias feita na revista britânica Autocar e, para um incauto observador, tal amplitude de oferta, assim descrita na imprensa especializada, poderia parecer um sinal vitalidade de um construtor automóvel já com 116 anos. Contudo, para qualquer Alfisti (como – deixo já aqui o disclaimer – eu sou) ou alguém que siga de perto o mercado automóvel sabe, a realidade é bem mais inquietante. A marca de Arese atravessa mais um período muito difícil, com um progressivo esvaziamento do ADN técnico e emocional dos seus modelos e com verdadeiramente poucas opções oferecidas a potenciais compradores.

Para perceber como chegámos a esta verdadeira dormência programada, é preciso encarar uma verdade: nos últimos 50 anos de história conturbada da Alfa Romeo, apenas um homem compreendeu verdadeiramente o que esta marca representa — e teve a coragem moral e financeira de a honrar. Chamava-se Sergio Marchionne e foi também o responsável por tirar a própria Fiat da falência...

A receita "BMW à italiana"

Quando Marchionne assumiu as rédeas do Grupo Fiat, em 2004, herdou uma Alfa Romeo reduzida a uma caricatura de si mesma. Décadas de gestão estatal pelo IRI e uma integração atabalhoada na Fiat tinham transformado a Alfa num mero exercício de cosmetologia: colava-se o emblemático Biscione no capot de chassis genéricos de tração dianteira, ainda que bem desenhados, e pouco mais.

Modelos como o 156 ou o 147 podiam ser deslumbrantes à vista, de facto, mas sob a chapa faltava a visceralidade mecânica que 40 anos antes ombreava com a melhor engenharia do mundo.

Marchionne, contudo, não era um burocrata do automóvel, como muitos dos seus contemporâneos (e muitos dos que se lhe seguiram). Já tinha provado o seu instinto em 2007, ao salvar a Fiat através da ressurreição emocional do 500, percebendo antes de todos os seus pares que o........

© Diário de Notícias