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A Encíclica 'Magnifica Humanitas' e a descolonização da identidade ocidental

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19.08.2026

"Para o povo colonizado, o valor mais essencial, por ser o mais concreto, é primordialmente a terra: a terra que deve assegurar o pão e, bem entendido, a dignidade da 'pessoa humana'. Essa pessoa humana ideal, nunca ouviu falar dela. O que o colonizado viu na sua terra é que podia ser preso, espancado ou morrer de fome impunemente; e nunca nenhum professor de moral, nenhum padre, recebeu tais golpes em seu lugar ou repartiu com ele o seu pão." 

Franz Fanon, Condenados da Terra, 1961.

Os temas tratados pelo Papa Leão XIV, na Encíclica Magnifica Humanitas – o papel de tecnologia numa sociedade que gostaríamos de ter, e a colonização – são dois dos mais polémicos, difíceis, e emocionais da atualidade. E numa altura em que a sociedade parece avançar cegamente para um futuro distópico ultratecnológico, é preciso parar e perguntar: para onde vamos? Queremos ir? Porque o futuro não é inevitável: é construído, agora, no presente, e depende do balanço que fazemos do passado.

Ora, a maioria dos problemas atuais das sociedades ocidentais – extrema acumulação de capital com erosão democrática a favor de estruturas oligárquicas; funcionalização extrema da natureza e destruição sistemática do meio ambiente; auto e hétero-desumanização e sexualização da criança; redução progressiva da pessoa a consumidor ou cliente; funcionalização máxima da existência a critérios acríticos de produtividade e eficiência; confusão entre riqueza ou sucesso e carácter; construção de um sistema de valores piramidal em que o capital, no topo, ocupa cada vez mais espaço; imposição de hierarquias rígidas em função da classe, género, racialização, nacionalidade; glorificação do egoísmo extremo e demonização da empatia e generosidade; etc. – são, pelo menos em parte, resultado do nosso passado colonial.

Somos corpo e alma (consciência, para os ateus), numa interdependência complexa e ainda não totalmente conhecida. Se o corpo explora, oprime, violenta, mata – e esta é a história do colonialismo ocidental – a alma sofre também. A consciência encolhe-se, suprime-se. E se uma identidade coletiva é construída em torno destas atividades, mais tarde ou mais cedo, a violência é internalizada. Grande parte da identidade coletiva europeia foi construída sobre pilares de barro: superioridade racial e cultural; incapacidade intrínseca de coexistência paritária; necessidade constante de destruição, violência, opressão e domínio, nos territórios colonizados, para alimentar a riqueza e as ilusões de democracia e valores humanos no continente.

Querem recibos? Temos atualmente em curso várias guerras de recursos, da Ucrânia ao Irão, e temos também participação europeia em Exércitos de mercenários ou grupos terroristas em locais como o Congo e o Sudão. Por exemplo, numa condenação inédita em França, provou-se em tribunal que oito ex-diretores da empresa Lafarge financiaram grupos terroristas na Síria – incluindo o ISIS – para manter uma fábrica aberta. Quantas pessoas morreram, na Síria e não só, para a produção não parar e a empresa não perder lucros? O genocídio de Israel na Palestina vai alimentando várias empresas europeias (a maioria das quais já retirava lucros da........

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