Revelação na poesia portuguesa. Maria F. Roldão
Numa belíssima edição de autor, publicado em Junho do ano passado, o livro de Maria F. Roldão – A Cadeira de Mogno – é um dos livros mais fortes da poesia portuguesa dos últimos dez anos.
O motivo da cadeira, associado à escrita, a escolha criteriosa de uma epígrafe de Alberto Caeiro (“Uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem / não preciso de raciocínio onde tenho espáduas”) e outra do Ulisses (“Uma felicidade desconhecida lambia-me os rins”), isso talvez explique o que lemos neste, repito, livro fortíssimo da poesia que se faz hoje.
O primeiro poema, “Nádegas”, é uma entrada disruptiva nas imagens, no rigor rítmico, na sageza dos encavalgamentos: “Superfície aberta e rija, os / músculos da trave apertados / na bacia. A dureza da cadeira / senta-se, vistosa e limpa, nos // músculos contíguos ao coração / do ânus. Nos frisos laterais, / as tachas abrem o riso escuro / do retro; sentamo-nos nela // controlada urgência de / um líquido que escorre desde / a raiz dos rins até à curva / do ilíaco. Ossos em ângulo // de 90 graus, liposidades, / bagos de sangue, o casulo / do conforto – as bochechas de / carne........
