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“Cidadãos: quando tornaremos a...”

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27.07.2026

No regresso há sempre uma mala que ficou por descuido no cais; e ainda bem, porque chegámos com menos peso de sombras e podemos reparar melhor nas pessoas que continuam as mesmas só com caras de moldes vazios. Algumas trocaram-nas por nuvens passageiras, outras substituíram a pele por cartão brilhante, puseram novas bocas com dentes abertos de lacaios doces, desaprenderam de morder. Mas a maioria mantém o antigo calendário intacto à espera que as imagens antigas saiam das caves dos espelhos para voltarem a habitar a realidade morta. Para isso há quem carregue a voz de lágrimas, balas impotentes, abraços de polvo. Cidadãos: quando tornaremos a escrever manifestos ao povo? Outra sensação: a de que a nossa verdade se tornou mais casta e estrela desde que a lama arrasta bandeira vencida de chão em chão. Mas para reerguê-la a cólera não basta. Nem os punhos de vidro quebrado da solidão. Acabaram de ler um poema de José Gomes Ferreira. Pareceu-me oportuno partilhá-lo convosco nesta época estival em que, mais longe ou mais perto, em viagem ou em sonho, procuramos descansar depois de mais um ano de trabalho. Após meses de exigência, quão bom é imaginar uma mala esquecida no cais? Não por desleixo, mas porque há bagagens que pesam mais do que aquilo que realmente transportam. Há malas cheias de sombras, de ruído, de indignações acumuladas e de notícias que atravessam os nossos dias à velocidade de um dedo sobre um ecrã. Viajar ensina-nos que nem tudo merece acompanhar-nos. Com menos peso, erguemos a cabeça, olhamos melhor. Reparamos nas pessoas, nas cidades e em nós próprios. Percebemos que regressar nunca é apenas........

© Correio do Minho