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“Descarbonizar para proteger: da...”

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26.03.2026

O recente aumento dos preços dos combustíveis fósseis não é apenas mais um episódio conjuntural no mercado energético. Trata-se de um choque sistémico, com repercussões imediatas nas cadeias de produção e, consequentemente, no custo de vida das famílias e na competitividade das empresas. Este fenómeno expõe, com clareza, uma vulnerabilidade estrutural: a dependência persistente de fontes energéticas externas e voláteis. Perante desafios desta magnitude, a resposta não pode ser fragmentada nem limitada ao plano nacional. A natureza sistémica do problema exige uma abordagem coordenada ao nível europeu - célere, solidária e consequente. Foi precisamente esse o caminho seguido pela União Europeia após a invasão da Ucrânia, ao reforçar o compromisso com a redução da dependência energética da Rússia. Hoje, face às novas tensões no Médio Oriente, essa ambição deve não apenas manter-se, mas intensificar-se. A descarbonização da economia não é, portanto, um luxo ideológico nem uma agenda de longo prazo desligada da realidade. É, antes, uma resposta pragmática a crises concretas. Reduzir a dependência de combustíveis fósseis significa reforçar a autonomia estratégica, garantir maior previsibilidade económica e proteger cidadãos e empresas de choques externos. Neste contexto, importa reconhecer o percurso consistente do Governo português, em especial da Ministra do Ambiente e Energia, Prof. Maria da Graça Carvalho. As políticas públicas adotadas nos últimos anos têm colocado Portugal na linha da frente da transição energética. Em 2025, cerca de 80% da eletricidade produzida no país teve origem em fontes renováveis - um marco que resulta de investimento continuado em energia eólica, solar e hídrica, bem como no reforço das infraestruturas associadas. Mas a ambição não se esgota na produção. O Governo tem também apostado no reforço das interligações energéticas europeias, elemento essencial para um mercado mais integrado e resiliente. A eliminação de bloqueios à criação de novas conexões elétricas permitirá não só otimizar recursos entre Estados-Membros, como também reduzir custos e aumentar a segurança do abastecimento. O impacto destas políticas é particularmente relevante em territórios como o Minho. Tradicionalmente marcado por uma forte ligação à natureza e por uma economia diversificada, o Minho tem beneficiado da expansão das energias renováveis, quer através da instalação de parques eólicos e solares, quer pela dinamização de cadeias de valor locais associadas à transição energética. Esta transformação representa uma oportunidade concreta de desenvolvimento regional, fixação de população e criação de emprego qualificado. Ao mesmo tempo, a aposta na descarbonização contribui para preservar os recursos naturais que são, eles próprios, um ativo estratégico da região - do turismo à agricultura. A transição energética, quando bem conduzida, não é um fator de rutura com o território, mas sim um instrumento de valorização do mesmo. Importa também assegurar que esta transformação não deixa ninguém para trás. A transição energética deve ser socialmente justa, garantindo que famílias mais vulneráveis não suportam desproporcionalmente os custos da mudança. Instrumentos de apoio ao consumo energético, eficiência nas habitações e políticas públicas inclusivas são essenciais para que a descarbonização seja não apenas eficaz, mas também equitativa. Num momento de incerteza global, importa não ceder à tentação de soluções imediatistas que perpetuem dependências estruturais. O caminho é exigente, mas claro: acelerar a descarbonização, reforçar a cooperação europeia e garantir que os benefícios desta transformação chegam a todos os territórios. Ainda assim, persistem desafios que não podem ser ignorados. A fragmentação do mercado energético europeu, a morosidade na execução de projetos transfronteiriços e a insuficiente capacidade de armazenamento continuam a limitar o pleno potencial da transição energética. É neste ponto que a União Europeia deve dar um passo em frente, não apenas como coordenadora, mas como verdadeira impulsionadora de uma política energética comum, capaz de garantir eficiência, solidariedade e segurança para todos os Estados-Membros. Portugal está no rumo certo. E o Minho mostra que é possível conciliar ambição climática com desenvolvimento económico e coesão territorial.

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