“O legado da Pesca e da...”
Viana do Castelo é, historicamente, uma cidade moldada pelo Atlântico. A sua identidade, cultura, economia e tecido social estão intrinsecamente ligados ao Porto de Mar, que serve como o coração pulsante de uma estratégia de desenvolvimento que hoje designamos por Economia Azul. No atual cenário global, a cidade enfrenta o desafio de modernizar os seus setores tradicionais — a pesca e a construção naval — enquanto se posiciona como um player central na descarbonização do transporte marítimo e na defesa da soberania oceânica. A importância do legado e a evolução dos setores tradicionais representa um ativo para a Economia do Mar da nossa cidade. A pesca em Viana do Castelo não é apenas uma atividade económica, é também um pilar cultural. No entanto, o setor tem percorrido um caminho de profunda transformação nos últimos anos. A transição para uma pesca sustentável deixou de ser uma opção ambiental para se tornar uma necessidade de mercado e uma atitude responsável dos nossos pescadores. A frota local tem adotado práticas na gestão de recursos que visam a redução do esforço de pesca e a seletividade das artes, garantindo que o stock de espécies se mantenha estável. A aposta da "Lota de Viana", com o enquadramento da DOCAPESCA, na valorização do pescado passa pela certificação de origem e pela melhoria da cadeia de frio e logística, garantindo que o pescado chegue ao consumidor com uma pegada de carbono reduzida, garantia de qualidade e valor acrescentado. A modernização da frota exige dos armadores um esforço crescente na introdução de tecnologias de monitorização a bordo, que permitem aos pescadores otimizar rotas, reduzindo o consumo de combustível e minimizando o impacto nos ecossistemas marinhos. O setor da construção e reparação naval, dominado historicamente pelos estaleiros locais, representa um dos maiores ativos industriais da região e do país. Viana do Castelo consolidou-se como um centro de competência na construção de navios tecnologicamente avançados, desde navios-hotel para cruzeiros fluviais até patrulhas oceânicos para a marinha portuguesa. A reparação naval, por sua vez, atua como um catalisador de competências técnicas, atraindo armadores de bandeiras internacionais que procuram a qualidade da mão-de-obra vianense. Este setor é o motor que dinamiza pequenas e médias empresas da região, criando um ecossistema industrial resiliente. Hoje a descarbonização do transporte marítimo é uma grande oportunidade para os estaleiros navais, na reformulação dos motores tradicionais e na instalação de novos equipamentos e motores com biocombustíveis. O transporte marítimo global é responsável por cerca de 3% das emissões de CO?, e a Organização Marítima Internacional impôs metas rigorosas para a neutralidade carbónica. Viana do Castelo está estrategicamente posicionada para liderar esta mudança através de duas frentes. Em primeiro lugar o porto de mar e os estaleiros têm capacidade para se adaptarem à construção de embarcações movidas a energias alternativas, como o hidrogénio verde, amoníaco ou propulsão elétrica para curtas distâncias. Em segundo lugar as Energias Renováveis Offshore. A proximidade ao projeto WindFloat Atlantic demonstra que Viana é o porto de apoio logístico ideal para a transição energética. A infraestrutura portuária pode vir a ser adaptada para servir de base à montagem e manutenção de parques eólicos marítimos, criando uma nova fileira industrial que cruza a metalomecânica pesada com a alta tecnologia. A economia do mar exige segurança. Viana do Castelo tem desempenhado um papel crucial na Economia da Defesa, nomeadamente através da construção de Navios de Patrulha Oceânica (NPO) para a marinha portuguesa. Estes navios, construídos são essenciais para a vigilância da Zona Económica Exclusiva (ZEE), combate ao tráfico, busca e salvamento, e proteção de infraestruturas críticas como cabos submarinos. O Porto de Mar de Viana do Castelo no futuro pode não ser apenas um local de carga e descarga, pode ser um laboratório de inovação onde o saber-fazer ancestral dos pescadores e construtores navais se encontra com a engenharia do futuro. A evolução para uma pesca sustentável protege o ecossistema, enquanto a aposta na descarbonização e na defesa garante que a cidade permaneça no mapa das rotas comerciais e tecnológicas do século XXI. O sucesso desta estratégia depende da simbiose entre o poder local, a academia e o setor privado, garantindo que Viana do Castelo continue a ser o "porto seguro" da economia azul nacional.
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