“Tecnato americano”
Tem sido difícil compreender a fixação de Donald Trump em adquirir a Gronelândia, a maior ilha do mundo, com uma extensão equivalente à soma de Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha e Reino Unido, mas habitada por apenas cerca de 60 mil almas, aproximadamente o mesmo número de habitantes de cidades como Viseu ou o Funchal. A ilha só se tornou oficialmente uma colónia da Dinamarca em 1721. Antes disso, os vikings que ali se haviam estabelecido tinham desaparecido e os povos inuit já habitavam a região há séculos. Durante a Segunda Guerra Mundial, com a Dinamarca ocupada pelo regime nazi, os Estados Unidos anteciparam-se ao perigo: temendo que Hitler transformasse a ilha numa plataforma estratégica para controlar rotas marítimas e apoiar operações no Atlântico Norte, Washington colocou a Gronelândia sob a sua proteção, instalando bases militares e postos meteorológicos cruciais para o esforço de guerra. É deste episódio que Trump extrai um dos seus argumentos: os EUA nunca deveriam ter devolvido a ilha à Dinamarca. A soberania formal da Gronelândia só seria transferida para o Reino da Dinamarca em 1953, num processo que culminou com a concessão de autonomia alargada em matérias internas, embora sem plenos poderes sobre política externa. Porque cobiça então Donald Trump este gigantesco território gelado? A sua ambição parece ir além da mera nostalgia geopolítica. O Presidente dos Estados Unidos, que mais do que um político se apresenta como homem de negócios e tubarão do setor do imobiliário, parece ter-se deixado seduzir por uma visão radical para a América concebida na década de 1930 por Howard Scott, fundador do movimento da Tecnocracia. Num contexto de Grande Depressão, Scott projetou a criação de um superestado norte-americano administrado não por políticos, mas por cientistas e engenheiros, onde a gestão racional de recursos e energia se sobreporia às fronteiras tradicionais. Mapas da década de 1940 ilustram essa ambição: um espaço integrado que englobaria Estados Unidos, Canadá, Gronelândia e partes da América Central e Caraíbas. Trump, que justifica a expansão territorial como necessidade defensiva face à Rússia e à China, parece ter encontrado nesta utopia/distopia tecnocrática a sua verdadeira motivação: a organização do continente como um gigantesco sistema industrial, orientado para o controlo estratégico de recursos e infraestruturas. As ameaças ao México e ao Canadá, o assédio à Venezuela, a Cuba e ao Panamá, e a obsessão pela Gronelândia não são atos isolados. Inscrevem-se numa visão coerente, a de um “Tecnato Americano” que Trump, talvez mais do que qualquer outro líder antes dele, parece determinado a concretizar. O que verdadeiramente está em jogo transcende a retórica expansionista. Na era do degelo do Ártico, a Gronelândia tornou-se peça central do xadrez geopolítico: o seu subsolo encerra terras raras, urânio e petróleo, recursos cobiçados na transição energética, e o controlo do território significa acesso privilegiado a novas rotas marítimas entre Ásia, Europa e América do Norte. A obsessão trumpista, por mais excêntrica, assenta numa leitura pragmática destas realidades. Resta saber se esta visão germinará. A Dinamarca recusa vender a ilha e os groenlandeses, apesar da crescente afirmação independentista, dificilmente trocarão Copenhaga por Washington. Mas ao resgatar ideias do baú da História, Trump obriga-nos a reconsiderar o que parecia arrumado: a era das anexações territoriais e das esferas de influência declaradas sem pudor.
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