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“O estilo Burda da Sra. Seguro”

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28.03.2026

António José Seguro tomou posse como XXI Presidente da República no passado dia 9 de março. Fez-se acompanhar, como expectável, pela mulher e os dois filhos. Toda a família se apresentou a trajar com a mesma cor, azul pastel, num símbolo de união e harmonia. A filha do casal, Maria Margarida Seguro, de 23 anos, levava um vestido Clemmie, com mangas em sino e decote em V, da marca britânica Suzannah London, orçado em mais de 2000 euros. Mais digna de reparo, todavia, foi a indumentária da esposa, Margarida Maldonado Freitas, que exibiu uma peça griffe Valentino, supostamente de 5000 euros, na qual introduziu uma modificação: retirou os botões originais para colocar uns de filigrana com corações de Viana. Esse gesto provocou uma pequena controvérsia não confinada às revistas del corazón. As senhoras Seguro seguiram no essencial os três princípios sobre o papel social do vestuário feminino formulados por Thorstein Veblen no seu célebre artigo “Teoria económica dos vestidos de mulher” (1894): parecer caro, novo e inapropriado para a vida quotidiana. Isso significa que o valor da roupa exibida não deriva de um critério estético, mas de cumprir essas três funções. Entende-se que num evento como o de uma tomada de posse presencial, a roupa não seja escolhida pela sua utilidade e que funcione claramente como sinal de estatuto, poder e mensagem simbólica. Há, todavia, um elemento extra que Veblen parece ter menosprezado: o da comunicação política e cultural. O enxerto dos botões de filigrana com corações de Viana a pedido da primeira-dama visou ser uma homenagem a Portugal, mostra que a roupa também serve para transmitir identidade, diplomacia e intenção, não apenas riqueza. Foi, em todo o caso, um modo algo tímido de homenagear a cultura portuguesa. A primeira-dama limitou-se a personalizar uma peça de marca internacional com botões de filigrana de Viana, sem recorrer a um criador nacional, transformando o gesto simbólico numa homenagem discreta e quase secundária, que privilegia prestígio global em detrimento de afirmação cultural mais assertiva. Alguns chegaram mesmo a sugerir uma alegada violação de direitos de autor. Pode argumentar-se que, uma vez adquirida, a peça pertence à compradora, que pode modificá-la ou até destruí-la. Mas, levado ao extremo, esse raciocínio torna-se moralmente chocante: permitiria, em teoria, que alguém com recursos financeiros suficientes alterasse ou queimasse a Gioconda de Da Vinci sem consequências. A crítica, portanto, não é legal, mas ética e simbólica, sublinha como certos gestos de ostentação e personalização de luxo podem ser vistos como um desapego perturbador à arte e à cultura que pretendem homenagear. O caso faz recordar, de certa forma, as obras do pintor argentino Lucio Fontana, célebre pelos cortes nas suas telas, concebidos como parte da própria criação. Algumas dessas peças, quando chegaram às mãos de colecionadores privados, foram modificadas ou “restauradas” sem autorização, alterando a intenção original do artista. Tal como acontece com a intervenção nos botões do vestido de Valentino, a situação ilustra o dilema do proprietário: comprar um objeto de valor não garante apenas o direito de possuí-lo, mas levanta questões sobre respeito à obra e ao seu significado. No caso da primeira-dama, a modificação funciona como uma homenagem singela à cultura portuguesa, mas também revela o risco de transformar um objeto de luxo em algo que privilegia prestígio pessoal em detrimento do seu valor cultural ou artístico.

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