menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

“Chega de parolice universitária ”

18 0
28.02.2026

Estalou recentemente uma controvérsia na sequência de uma decisão do atual reitor da Universidade Nova de Lisboa, Paulo Pereira, que determinou um prazo de 90 dias para que a denominação oficial de cada unidade orgânica da UNL passe a ser utilizada em língua portuguesa em documentos, plataformas digitais, suportes físicos, atos e procedimentos administrativos. A necessidade da emissão desse despacho reitoral decorre do facto de várias IES portuguesas terem resvalado para aquilo que o constitucionalista Jorge Bacelar Gouveia designou como “anglofolia pacóvia”. Particularmente visadas estão as auto-rebatizadas Nova School of Business & Economics, Nova School of Law e Nova Medical School, que, na prática, enjeitaram a língua portuguesa. A justificação apresentada é a da internacionalização, um argumento cómodo e intelectualmente preguiçoso. Como assinala, com equilíbrio, Paulo Pereira, nada impede a coexistência de duas designações, uma em português e outra em inglês. A pulsão para suprimir a nossa língua parece antes radicar, em alguns casos, num sentimento de vergonha em relação ao idioma e, mais amplamente, ao próprio país. Se assim for, talvez fizesse mais sentido que procurassem realização pessoal em contextos anglófonos, em vez de desfigurarem instituições públicas portuguesas. Convém recordar que atualmente, o inglês tem cerca de 380 milhões de falantes nativos, contra 230 milhões de portugueses. Considerando também os falantes como segunda língua, o inglês atinge cerca de 1,3 mil milhões, próximo do mandarim, enquanto o português chega a 270 milhões. Esta hegemonia do inglês apenas principiou na década de 1980, impulsionada pela globalização e somente se reforçou com a expansão da Internet no início do século XXI. A controvérsia mantém-se aberta porque os responsáveis pelas referidas escolas da UNL pretendem eliminar o uso do português no seu funcionamento corrente. O problema é que estas unidades integram o sistema de ensino superior português, são financiadas por dinheiros públicos e estão acreditadas pela A3ES com o compromisso de ministrarem ensino e desenvolverem investigação em língua portuguesa. E assim deve ser. O argumento, que já ouvi repetido, de que o inglês é indispensável para participar numa conversa global não colhe. Na prática, conduz a situações caricatas, para não dizer escandalosas, como a de se convidarem quase exclusivamente oradores e avaliadores anglófonos, sobretudo britânicos, norte-americanos e canadianos, que não fazem qualquer esforço para aprender outra língua, muito menos a nossa, chegando alguns a proclamar que nunca o farão. Não faz sentido promover concursos académicos cujos editais facultam a opção pela língua inglesa. Não faz sentido contratar docentes que não dominam o português, admitindo-se níveis elementares (A1) quando deveria ser exigida proficiência plena (C2). O mesmo se aplica aos chamados “estudantes internacionais”, cuja captação é apregoada com entusiasmo pelas nossas IES, mas que chegam aos cursos com um domínio do português que mal ultrapassa o nível de sobrevivência turística. E outro tanto vale para os concursos promovidos pela FCT para atribuição de bolsas ou financiamento de projetos: as candidaturas devem poder ser apresentadas em português, e os júris devem ser compostos por avaliadores lusófonos. É imperativo inverter este estado de coisas nas universidades e, por arrasto, noutras esferas da vida pública e científica. A internacionalização não se faz à custa da língua própria; faz-se com instituições fortes, enraizadas na sua cultura e abertas ao mundo sem complexo de inferioridade.

Deixa o teu comentário

Últimas Escreve quem sabe

Máscaras que cabem: quando o talento aprende a esconder-se

Que futuro para o edifício da Ranhada e Teixeira?

Subscrever NEWSLETTER

Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos.


© Correio do Minho