“A Cidade…”
A Cidade é, porventura, a maior invenção humana, a mais complexa e democrática, tão necessária como desejada. Suportada pelo chão chamado território, resultado da necessidade de trocas chamada cultura e economia, feita de relação e interdependência sintetizada em sociedade, a Cidade é a maior e melhor síntese da capacidade humana em acomodar-se e melhor avançar no tempo e no espaço. Por ser assim, tal deveria transformar a mesma num bem acarinhado e amado, cuidado e alimentado. Não eliminando a sua com- plexidade e dificuldade de gestão, os desafios que lança e os perigos que apresenta, a Cidade é, potencialmente, causa e efeito inquestionavelmente positivos que, é convicção, deveria elevar a mesma a um estatuto superior a uma dúvida constante, à crítica “gratuita” e fácil e à sua desvalorização e relativização como “dado adquirido” e, obrigatoriamente, “resposta pronta e eficaz” para todos os problemas e afins… Todavia, tal não ocorre e, hoje, a Cidade atravessa um momento (dir-se-á) de crise, sendo alvo de questionamento, constante adulteração e profunda crítica sobre a sua dupla capacidade de resposta às necessidades e anseios humanos e de salvaguarda de compatibilidade e respeito pelo ambiente e “natureza”… Generaliza-se a crítica à densidade da ocupação do solo e à intensidade da vida urbana, questiona-se e aceita-se como verdade inequívoca a sobreposição da economia e da finan- ceirização a tudo o mais, duvida-se da sua capacidade de gerar cultura e “sustentabilidade” em detrimento de extremismos, populismos e poluição e tanto mais. Dá-se por adquirido que a Cidade é, exclusivamente, mal desenhada por Arquitectos, é dominada ditatorialmente pelo automóvel, é proficuamente ingovernável pela classe política e deturpada pela classe administrativa, é indelevelmente condicionada pelos investidores e tomada de forma abrupta e total pelos turistas feitos estranhos que chegam para aproveitar, abarcar e nada deixar… Em conjugação, dá-se também por adquirido que o residente é infeliz, o funcionário é sobrecarregado, o comércio local é derrotado, numa miscelânia de perce- pções e perspectivas que, se algo tem que merece atenção e acção, porque passível de realidade e verdade, muito tem também de exagerado e empolado, desvirtuado e adulterado. Não se duvida dos problemas, nem tão pouco se deve ou quer omiti-los. Apenas se deseja perspectivar e visibilizar o quanto a cidade representa de bom, de potencial e o quanto necessitamos da mesma para viver e para viver bem! A Cidade é um “organismo complexo” onde confluem e se relacionam seres humanos tão diferentes nas suas raízes e natureza, quanto singulares nas suas culturas e qualidades, onde se concentram e desenvolvem actividades económicas que respondem às trocas de bens necessários ao quotidiano e que melhor potenciam a ambição humana de um “futuro melhor”; onde se constrói e edifica uma plataforma de saberes e património que gera cultura. A cidade não é anódina nem inócua, indiferente ou inconsequente, impossível de não transformar. Pelo contrário! Quer pela sua natureza intrínseca, quer pela sua dimensão e circunstância, onde chega, a Cidade transforma. E, por isso, vale a pena pensar sobre ela. Para melhor a cuidar, tratar, melhorar e enriquecer… Que assim saibamos fazer!
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