menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

“Metamorfoses ”

17 0
27.02.2026

O Homem na sua existência, uma caminhada sem paralelo no reino animal, entre conquistas e destruições, procurou suplantar-se em relação às restantes espécies pela sua humanidade, ou por esse denominador de chão comum num duelo entre as misérias e as bondades. Sublevações, aqui e ali, deram lugar a planuras pontuais da nossa presença neste globo. Foram várias as metamorfoses a que se submeteu, consciente ou não, nessa procura incessante por uma vida em sociedade mais justa, confortável e, ainda que debatível, progressista. Definições foram postas em causa, repensadas com o Homem no centro das preocupações e movimentações, ao invés de um deus qualquer. O equilíbrio como linha do horizonte, mas com dificuldade superior à de um trapezista sem rede num qualquer circo nómada. Fico a pensar se nesses meandros havia consciência da imersão nessa transformação, pleno conhecimento da metamorfose como processo de mudança para algo, melhor ou pior seria deixado para outras considerações. Acredito que a vontade de mudança venha sempre de um almejo íntimo de melhorar o real circundante, embora possa não ser consensual o seu entendimento. Neste tempo que me calhou em sorte viver, e com a consciência de que nem me posso queixar muito, sinto que coletivamente estamos numa dessas fases, numa metamorfose estrutural da humanidade. Em vez de rumarmos a um ideal coletivo de compreensão intrínseca, questionamos e desconfiamos, alimentamos o medo, principalmente do estranho, como a família de Gregor no livro de Kafka. Com o tempo, vamos esconder a diferença e a estranheza, o que nos envergonha de certo modo. Se até há pouco tempo se debatiam ideias, ideologias e ideais, perspetivas diversas, a polarização a que assistimos levou, não só ao meu redor, ao silenciamento de muitas pessoas a quem reconheço valor acrescentado. Para não criar fricção, discussão, desentendimentos vários, dizem-me. E tudo isto começou com o polimento (mal) disfarçado do politicamente correto ou dos eufemismos sensíveis. Como se fosse algo vergonhoso, que se tenta esconder, mas quanto mais se esconde mais lateja. Tal como a família de Gregor, esconder para fazer de conta que não existe. A fase seguinte já se respira, aqui e acolá. O ódio pela humanidade, pelo que é considerado defeito, inutilidade, atraso ao progresso da máquina perfeita construída à imagem e semelhança, qual Frankenstein. O desnecessário como obstáculo ou alvo a abater. Que poema escreveria Álvaro de Campos sobre este (novo?) fervilhar tecnológico? Se nos inspirássemos antes nos poemas de Ovídeo, onde o amor é a causa das metamorfoses e, com isso, a riqueza da diversidade humana, para o bem e para o mal? O seu reconhecimento e valorização, antes de mais, na partilha de reflexões, pensamentos, considerações e conclusões são o motor menos poluente para a conquista de um futuro mais equilibrado. A educação, sempre a educação, como alavanca coletiva. Que animal irá sair deste casulo?

Deixa o teu comentário

Últimas Voz aos Escritores

Apontamento sobre os primórdios da nossa língua

A sabedoria do envelhecer

Subscrever NEWSLETTER

Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos.


© Correio do Minho