A Miguel, Benício e Sarah
No dia em que escutei meu filho chorar pela primeira vez, na maternidade, e quando o peguei nos braços, chorei. Com o coração inundado de amor, olhei nos olhinhos dele e roguei a Deus, a Jesus e à Nossa Senhora que iluminassem os passos dele. Voltei a chorar com o balbuciar das primeiras palavras, ao encontrá-lo de pé, no berço, e quando ensaiou os passos. Depois, nas duas formaturas. Eu daria a minha vida por ele.
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O que aconteceu em Itumbiara, na semana passada, também me fez chorar. De tristeza; de compaixão por aquela mãe, que teve Benício e Miguel arrancados de sua convivência; de raiva, por um "pai" que preferiu matar a proteger e amar infinitamente o que lhe deveria ser mais sagrado. Senti indignação ao ver dezenas de pessoas culpando uma mãe que morreu em vida. Julgaram-na como se uma suposta traição justificasse um ato insano, covarde, repugnante, atroz e monstruoso.
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Dói imaginar o que Benício e Miguel sentiram ao verem o próprio "pai" prestes a ceifar-lhes a vida. Nem consigo conceber o medo e o horror em seus corações ante o inevitável. Dói pensar nessa mãe, punida pela psicopatia de um homem que a considerava propriedade. Espero, Sarah, que as lembranças de seus filhos e o amor indestrutível acalentem seu coração e apaziguem um pouco a saudade, caso isso seja possível.
Não bastasse essa tragédia toda, nas redes sociais li "gente do bem" ofendendo Sarah e culpando uma mãe pelas mortes dos filhos. A que ponto chegamos? Um tribunal de exceção de pretensos paladinos da moral, de cidadãos que se consideram acima do bem e do mal e não se envergonham em arruinar ainda mais uma mãe devastada. Em 2021, a jornalista filipina Maria Ressa, que acabara de ganhar o Nobel da Paz, me disse que uma lama tóxica escorre das redes sociais. Verdade. Muitas vezes, sua fonte é a hipocrisia, a insensatez, o desejo de ter "curtidas" ou "likes".
Nossa sociedade está doente. Soa paradoxal e irracional, em nome da moral e dos bons costumes, condenar uma suposta traição e praticamente avalizar um duplo filicídio. Isso é a expressão mais abjeta da misoginia. Passar pano para assassino é imperdoável. O julgamento sumário de uma mãe obrigada a sepultar os dois filhos deveria servir de pretexto para um controle das redes sociais. Responsabilização sobre o que é propagado. Liberdade de expressão não dá às pessoas o direito de insultar.
O mundo carece de empatia, de as pessoas se enxergarem na dor do outro. Não foi Sarah quem puxou o gatilho. Não foi ela quem teve a frieza de apontar uma arma para a cabeça dos filhos. Não foi quem preferiu ser homicida a divorciar e seguir sua vida, sob o carinho dos filhos. Benício e Miguel foram vítimas da pior das traições. Aquele que deveria lhes dar amor retirou-lhes o direito de crescerem, de se casarem, de segurarem um filho nos braços, de construírem uma família, de serem pais na acepção mais pura e real do termo.
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Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 1997. Curioso por natureza, adora buscar histórias. Desde 2005, trabalha no Correio Braziliense, onde entrevistou laureados com o Nobel da Paz, embaixadores e ex-presidentes.
