Enquanto o PIB sobe, a floresta, a saúde e a dignidade continuam caindo
Em 31 de janeiro de 2026, o economista francês Thomas Piketty publicou no Le Monde um texto que devolveu à agenda pública uma pergunta antiga e urgente. O Produto Interno Bruto, escreveu ele, tornou-se um instrumento inadequado para sociedades atravessadas pela crise climática, pela desigualdade crescente e pelo desmonte silencioso dos serviços públicos.
Um país pode crescer no papel enquanto adoece na prática. A produção sobe, os hospitais registram gastos maiores, as escolas ampliam matrículas, e ainda assim a saúde da população piora, o tempo livre encolhe, a água some das torneiras e a segurança vira memória de outra época distante.
Em abril de 2026, o IBGE registrou desemprego em 5,8%, alta frente aos 5,4% do trimestre anterior, mesmo com o rendimento médio batendo recorde de R$ 3.732. O país produziu mais riqueza agregada enquanto reduzia em 338 mil o número de pessoas ocupadas, prova de que crescimento e inclusão nem sempre caminham juntos.
Carrego a convicção de que essa distância entre crescer e adoecer nasce de uma civilização ensinada a valorizar o ter mais do que o ser. Aprendi, em décadas de estrada por outros povos, que a pátria verdadeira de cada ser humano é o planeta inteiro, e que toda família encontrada pelo caminho pertence à mesma linhagem.
O que o crescimento esconde
O Produto Interno Bruto nasceu nos anos 1930 como ferramenta de guerra e reconstrução. Seu criador, Simon Kuznets, avisou desde o início que renda nacional jamais deveria ser confundida com o bem-estar de um povo. A advertência ficou arquivada por noventa anos, enquanto governos aprendiam a contar mercadorias e esqueciam de contar as perdas humanas deixadas pelo caminho.
Neste ano de 2026, a Organização das Nações Unidas e a OCDE consolidaram um painel com 31 indicadores para medir aquilo que o PIB sempre ignorou. As dimensões incluem condições materiais, saúde, educação, trabalho, segurança, qualidade........
