menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A China reescreve o jogo que os Estados Unidos tentam repetir desde o Japão

19 0
24.04.2026

A história econômica recente mostra que grandes inflexões raramente nascem do acaso ou de supostas fatalidades de mercado; elas são fruto de decisões políticas deliberadas, sustentadas por interesses estratégicos e executadas com precisão cirúrgica. Em 1985, o rearranjo imposto à economia japonesa não foi apenas um ajuste cambial negociado em Nova York, mas um movimento coordenado para redefinir a competitividade global.

Ao longo de décadas como professor universitário, examinando criticamente os movimentos da globalização e dissecando obras como O Horror Econômico, de Viviane Forrester, consolidou-se a percepção de que nenhuma nação sustenta prosperidade isolada e que a interdependência entre povos não é escolha, mas imposição histórica, estrutural e irreversível do sistema econômico contemporâneo, marcado por assimetrias profundas, choques recorrentes, dependências cruzadas e disputas permanentes por poder, tecnologia e recursos.

Nas últimas semanas, dediquei atenção rigorosa à comparação entre dois momentos que expõem a lógica do poder global: os Estados Unidos e o Japão de ontem, e os Estados Unidos e a China de hoje. A análise rejeitou paralelos simplistas e avançou sobre evidências concretas, tensões acumuladas e rupturas silenciosas, revelando que a ordem econômica internacional atravessa uma inflexão decisiva, onde antigos mecanismos de contenção já não garantem controle e podem, paradoxalmente, acelerar a redistribuição global de poder.

Quando o dólar cedeu sob pressão

O Acordo de Plaza foi firmado em 22 de setembro de 1985, no Hotel Plaza, em Nova York, reunindo Estados Unidos, Japão, Alemanha Ocidental, França e Reino Unido. Naquele momento, a Casa Branca era ocupada por Ronald Reagan, enquanto o Japão era governado pelo primeiro-ministro Yasuhiro Nakasone. Duas decisões centrais emergiram dali: a desvalorização coordenada do dólar frente ao iene e ao marco alemão, e a intervenção concertada dos bancos centrais para garantir essa reconfiguração cambial. O efeito foi imediato. O iene saltou de cerca de 240 por dólar para níveis próximos de 120 em menos de dois anos.

À época, o Japão respondia por cerca de 10% do PIB mundial e acumulava superávits comerciais robustos com os Estados Unidos, acima de US$ 40 bilhões anuais. A percepção de que Washington teria “liquidado” o Japão simplifica um processo mais complexo, embora capture a essência de um gesto de força: quando uma potência se vê ameaçada em sua posição, mobiliza instrumentos capazes de alterar o ambiente econômico global.

O império japonês bateu à porta

O Japão não avançava apenas nos automóveis. A Toyota refinava o sistema just-in-time e pressionava gigantes como General Motors e Ford. No setor de eletrônicos, Sony, Panasonic e Toshiba redefiniam padrões........

© Brasil 247