Argentina: “Resistências cheias de vida”
Por Sergio Ferrari - Quando a última ditadura irrumpeu na Argentina, em março de 1976, Cecília "Checha" Merchán tinha apenas 6 anos. Na adolescência, iniciou seu ativismo social em Córdoba, 700 quilômetros a noroeste de Buenos Aires.
A partir dos anos 2000, representando um forte movimento social e coletivos de mulheres, ela assumiu cargos políticos como deputada federal por sua província (2007 a 2011) e, anos depois, como representante no PARLASUR (Parlamento do Mercosul). No entanto, como ela enfatiza, "o mais importante sobre meu tempo em cargos institucionais" foi o progresso que conseguiu consolidar em políticas de igualdade, diversidade e contra o tráfico e exploração de seres humanos.
Hoje, longe de cargos públicos e da política institucional, ela continua sendo a militante social e feminista ativa de sempre. "Minhas três prioridades são: coordenar La Colectiva, que é uma corrente feminista presente em seis províncias com várias centenas de mulheres atuando; promover a cooperativa editorial independente ChiriMbote, especializada em livros infantis, com a ideia de travar uma batalha cultural contra o revisionismo conservador do governo atual; e, além disso, participar do Confusas, um grupo musical com fortes raízes territoriais e participativas na Translasierra, a região onde moro."
Pergunta: Qual é a raiz da sua tão variada e rica história pessoal?
Cecilia Merchán (CM): Desde pequena, eu tinha duas referências poderosas: minha mãe e minha avó. Morávamos em uma cidade pequena no interior. Minha avó me contava histórias que me pareciam obras literárias fruto de sua grande inteligência. Um dia pedi ajuda para ela com uma tarefa da escola. Para minha surpresa, ela respondeu: "Não posso te ajudar porque não sei ler ou escrever". E ela me explicou que não podia ir à escola porque era pobre, mulher e vinha do interior. Naquele dia, entendi tudo sobre o que deveria fazer na minha vida para ajudar a mudar as duras realidades da exclusão social. Quando eu tinha apenas 17 anos, fui estudar na cidade de Córdoba e comecei a atuar mais ativamente em uma corrente político-social progressista criada por ex militantes antiditatoriais dos anos 70, que desenvolveu intenso trabalho de bairro e foi um dos pilares do movimento "piquetero" [NdT.: O “movimento piquetero” na Argentina surgiu em meados dos anos 90 como resposta ao alto desemprego e à pobreza, caracterizados pelo bloqueio de estradas (piquetes) e pela organização de trabalhadores desempregados. Essas organizações sociais, como o Polo Obrero e outros MTDs, usam ação direta para exigir planos sociais e comida]. Desde então, nunca parei até hoje.
P: Até hoje, que parece ser um momento particularmente difícil para @s atores sociais na........
