A Globo, o farol e a nossa ignorância consentida
A cena que não sai da minha cabeça e de milhares de jornalistas pelo Brasil é a de William Bonner, gravata impecável, microfone na mão, diante de Jair Bolsonaro exibindo um livro que chamava de "kit gay" e uma mamadeira com formato de pênis no melhor horário da TV aberta e sem interrupções. A Globo deixou passar, o editor-chefe diante da cena, não interrompeu, não contextualizou, não confrontou. E o país assistiu àquilo como se fosse notícia, quando era desinformação e mentira na maior emissora do país e em horário nobre.
Não chegamos onde estamos por acidente. Chegamos porque a maior emissora do país, em um momento decisivo, escolheu a audiência em vez da verdade, escolheu dar palco a uma mentira porque a mentira tinha público — e o público era rentável.
Anos depois, a Globo não aprendeu nada e trocou apenas o cenário.
O programa, o ator e o problema que ninguém nomeou
Na terça-feira, o GloboNews Debate reuniu o ator Juliano Cazarré, a psicanalista Vera Iaconelli e o pesquisador em saúde coletiva Pedro de Figueiredo para discutir masculinidade, comportamento e os desafios das relações contemporâneas. O debate aconteceu em torno do curso O Farol e a Forja, descrito como o "maior encontro de homens do Brasil", estruturado em três pilares: vida profissional e legado; vida pessoal, incluindo paternidade e dieta; e "vida interior", aprofundando masculinidade e cristianismo, culminando com celebração de uma Santa Missa.
Tudo bem e cada um tem o direito de organizar o retiro que quiser. O problema não é Cazarré, o problema é a Globo, que o sentou ao lado de uma psicanalista doutora pela USP e de um pesquisador em saúde coletiva — e tratou as três falas como equivalentes. Como se formação acadêmica, trajetória de pesquisa e popularidade nas redes fossem a mesma moeda. Como se o debate sobre relações de gênero, violência e subjetividade masculina fosse um assunto em que qualquer pessoa com opinião forte tem autoridade para circular como especialista.
Juliano Cazarré é bacharel em Artes Cênicas pela UnB. Ator talentoso, carreira respeitável, pai de seis filhos, católico convicto. Nada disso o qualifica para falar com autoridade técnica sobre masculinidade, saúde mental, estrutura de gênero ou dinâmicas........
