O destino do país vai às urnas
Em artigo-ensaio recente (“O golpe continuado”), o professor e historiador Lincoln de Abreu Penna estuda como um só fenômeno a tragédia que se abateu sobre nós em 1º de abril de 1964 e que, pelos seus efeitos, todos danosos, chega até nossos dias, justificando as apreensões que medram em setores significativos do pensamento democrático brasileiro.
Lincoln ressalta que o golpe militar “não foi [só] contra um governo constitucional, eleito pelo povo, mas contra o Brasil como nação que aos trancos e barrancos se estruturava para promover o arranco desenvolvimentista conjugado com as Reformas de Base”. Foi tudo isso, mas foi ainda mais: para além dessa tragédia, fez por terra um processo democrático então caracterizado pela crescente ascensão das forças populares e pelo esforço coletivo para dar fim à miséria.
É preciso lembrar e relembrar a herança de 21 anos de uma ditadura luciferina, que não só desterrou as liberdades civis e políticas, não só fechou o Congresso e aviltou o Poder Judiciário, como impôs o terror, tanto o terror cultural a que se referia Alceu Amoroso Lima quanto o terror das prisões, da tortura e dos assassinatos ainda sem conta fechada.
Pois foi defendendo esse legado de barbárie que o bolsonarismo chegou à Presidência da República e, como discípulo de régulos, governou o país e liderou a intentona de janeiro de 2023, mediante a qual, usurpando o mandato do presidente eleito, pretendia retornar ao poder do qual havia sido alijado pela soberania popular.
Independentemente de seus muitos erros e de seus muitos defeitos, ditados pela exorbitância de poderes e, lamentavelmente, pela sua composição atual, o STF desnudou o golpe; não se limitou a identificar os vândalos da Praça dos Três Poderes; indicou e puniu seus agentes, criminosos políticos que atentaram contra o Estado, e reles criminosos comuns. Foi quando esteve à altura dos desafios da história.
Demos, com seu concurso, uma lição ao mundo, ilustrando com coragem como as instituições podem se defender e defender o país.
Pois o bolsonarismo promete anistia para a malta de meliantes que, sob a liderança do capitão e o concurso de meia dúzia ou mais de generais e assemelhados, lançou-se contra as instituições republicanas.
Uma vez mais estamos sob graves riscos de nova fratura democrática e, na sua esteira, ameaça-nos um desastroso retrocesso histórico que promete levar de roldão as conquistas amealhadas pelo esforço nacional nesses 41 anos de vigência da Constituição de 1985. Desta feita, ao contrário de 1964, o mostrengo pode vir das urnas. E, uma vez mais, aponta contra o futuro do país, daquele país desenvolvido e soberano com o qual já chegamos a sonhar.
Ou seja, estamos sujeitos a um golpe de Estado que se pode processar segundo as regras da ordem constitucional, como os regimes fascistas e nazistas (que infestaram a Europa no século passado; alçando-se ao poder pela via eleitoral, logo implantaram longas ditaduras e ameaçaram a humanidade com a Segunda Guerra Mundial. E estão de novo na Itália, com a primeira-ministra Giorgia Meloni, do partido Irmãos da Itália (FdI), e na Alemanha, com o sucesso, em eleições provinciais, do neofascista Alternativa para a Alemanha.
A extrema-direita nativa, destoando de suas matrizes europeias, é, ainda, desavergonhadamente entreguista. Não cora diante do trumpismo; mais do que isso, goza com o........
