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O pânico antes do voto: a máquina do medo já está ligada

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25.09.2026

A poucos dias da eleição, o medo voltou a ser matéria-prima da disputa política. Pânico moral, religião, sexualidade e desinformação se combinam numa engrenagem de disputa psicológica sobre o eleitorado. O que está em jogo já não é apenas o voto, mas o ambiente emocional em que ele será decidido.

O lixo que chegou antes do voto

A mensagem é grotesca. Talvez por isso seja tão fácil subestimá-la. Fala em fezes, esperma, cromossomos, crianças doentes, abuso sexual, violência e morte. Afirma que determinadas práticas sexuais contaminariam o sangue, alterariam a genética e adoeceriam bebês. Tudo aparece como orientação de saúde, com a segurança de quem acredita estar revelando uma verdade escondida. A poucos dias da eleição, esse material voltou a circular em grupos bolsonaristas. A reação mais confortável seria rir, chamar de delírio e seguir adiante. Foi exatamente por isso que resolvi abrir a mensagem.

O que apareceu do outro lado não nasceu nesta eleição. Em setembro de 2016, Gutemberg Pacheco Lopes já havia levado uma versão da mesma teoria a um órgão do governo federal. O texto ficou preservado numa decisão da Comissão Mista de Reavaliação de Informações da Presidência da República. Ali já estavam a expressão “pandemia de sodomia”, a associação entre sexo anal, fezes, esperma, doenças infectocontagiosas e microcefalia, além da convocação para que o público procurasse conteúdos relacionados no YouTube. Meses depois, o mesmo repertório apareceria em vídeos publicados em seu nome.

A primeira conclusão impede qualquer atalho. A peça que reaparece agora não foi criada para a eleição de 2026. Não temos prova de que tenha sido produzida por uma campanha, financiada por partido ou lançada por uma operação centralizada. Ela é mais velha. E justamente por isso interessa. Durante quase dez anos, ficou disponível para ser encontrada, copiada, deformada, transformada em meme e devolvida à circulação quando encontrasse um ambiente receptivo. A internet conserva um estoque quase inesgotável de ressentimentos, teorias conspiratórias, medos religiosos, pseudociência e fantasias de contaminação. A política digital aprendeu a trabalhar com esse estoque.

É aqui que a mensagem deixa de ser apenas uma coleção de absurdos médicos. Ela reúne sexo, nojo, doença, crianças, culpa, família e degeneração numa mesma sequência emocional. Não é necessário compreender genética nem acreditar literalmente em cada relação causal apresentada. A força do material está em comprimir medos diferentes até fazê-los parecer partes de uma única ameaça. O sexo vira risco biológico. A diferença vira contaminação. Quando a criança aparece no fim da cadeia, o medo ganha sua justificativa mais poderosa. A pergunta, então, já não é apenas se a mensagem é verdadeira. Ela não é. A pergunta que importa é o que uma mensagem como essa tenta fazer com quem a recebe.

Não é a mentira. É o estado psicológico

Essa pergunta muda o terreno. Quando deixamos de olhar apenas para o conteúdo e passamos a observar o efeito buscado sobre percepção, emoção e comportamento, entramos no campo das operações psicológicas. A doutrina militar brasileira é objetiva. Operações psicológicas são procedimentos sistematizados destinados a levar públicos específicos a manifestar comportamentos desejáveis em favor de objetivos previamente estabelecidos. O centro da operação não é a mentira. É o efeito.

Isso exige precisão. Fake news não é sinônimo de operação psicológica. Uma mentira pode nascer espontaneamente, circular sem comando e desaparecer sem produzir efeito relevante. Pânico moral também não é, por definição, uma PsyOp. Nem toda pregação religiosa, propaganda eleitoral ou conteúdo radicalizado pertence ao mesmo fenômeno. Para falar seriamente em operação é preciso encontrar método, público, objetivo, repetição, canais e algum grau de intencionalidade. Sem isso, a expressão deixa de explicar e vira rótulo.

Mas uma peça não precisa integrar uma operação formal para cumprir funções compatíveis com uma. A mensagem sobre “sodomia” mobiliza emoções elementares. Nojo diante da contaminação. Medo da doença. Proteção da criança. Ameaça à família. Culpa sexual. Ela não oferece apenas uma informação falsa. Oferece uma posição diante do mundo. Há algo degradando a sociedade, há inocentes em perigo, há um mal a reconhecer. Quando esse mecanismo se repete, o adversário político pode deixar de ser alguém com quem se discorda e passar a aparecer como agente de uma destruição que precisa ser interrompida.

É por isso que reduzir o problema a fake news é pouco. A disputa decisiva acontece antes, no campo emocional em que as informações seguintes serão recebidas. Uma população submetida continuamente a mensagens de ameaça não precisa acreditar em todas elas. Basta que algumas deixem resíduos. Desconfiança, repulsa, ansiedade, a sensação........

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