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Brasil, o laboratório da guerra híbrida do século XXI

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06.09.2026

Durante duas décadas, crises reais do Brasil foram atravessadas por novas tecnologias de poder, interesses internos e forças transnacionais que aprenderam a explorar vulnerabilidades, reorganizar comportamentos e interferir na correlação de forças do Estado. Às vésperas da eleição de 2026, compreender essa trajetória deixou de ser exercício histórico: tornou-se uma questão de soberania democrática.

Uma reflexão diante do nosso tempo

Este artigo nasce de uma inquietação que me acompanha há muitos anos e que parece crescer à medida que tento compreender melhor aquilo que aconteceu e continua acontecendo no Brasil. Tenho dedicado parte importante da minha trajetória ao estudo da guerra híbrida, das operações psicológicas, da comunicação e das novas formas de disputa pelo poder, mas essa caminhada me ensinou sobretudo a desconfiar de explicações simples para processos históricos complexos. Não pretendo oferecer uma resposta definitiva, muito menos encaixar duas décadas de história numa teoria capaz de explicar tudo. Procuro apenas organizar reflexões, dúvidas e angústias acumuladas ao longo desse percurso diante da realidade objetiva de setembro de 2026, quando uma eleição presidencial se aproxima em meio a tensões institucionais, pressões externas e à entrada acelerada da inteligência artificial na mediação da vida política.

A pergunta que me acompanha é simples apenas na aparência: como chegamos até aqui? Do Mensalão a Junho de 2013, da espionagem norte-americana à Lava Jato, do impeachment à ascensão do bolsonarismo, dos ataques às urnas ao 8 de Janeiro, das sanções e tarifas à inteligência artificial, atravessamos conjunturas distintas e atores diferentes. Seria um erro reduzi-los a um único comando. Em sequência, porém, esses episódios revelam como a disputa pelo poder passou a atravessar informação, instituições, economia, tecnologia e a própria formação da percepção.

É nesse sentido que utilizo o conceito de guerra híbrida. Não como explicação universal, nem como sinônimo de conspiração ou interferência estrangeira. Sociedades entram em crise por suas próprias contradições, mobilizações podem nascer espontaneamente, investigações podem revelar crimes reais e instituições podem colidir sem que exista uma mão oculta. O problema começa quando vulnerabilidades reais são exploradas por atores capazes de combinar diferentes instrumentos para modificar percepções, comportamentos e correlações de força. A operação psicológica participa dessa lógica ao identificar públicos e vulnerabilidades, organizar emoções e enquadramentos e tornar determinados comportamentos mais prováveis.

Essa distinção é fundamental porque as contradições brasileiras não foram fabricadas em Washington, no Vale do Silício ou em qualquer centro externo de poder. Desigualdade, corrupção, concentração comunicacional, fragilidade institucional e conflitos entre projetos de país possuem raízes brasileiras. Ignorar isso nos transformaria em espectadores passivos da própria história e absolveria atores nacionais de suas responsabilidades. O que me interessa é compreender como essas contradições passaram a interagir com redes transnacionais, interesses geopolíticos, estruturas jurídicas e sistemas tecnológicos capazes de ampliá-las, reorganizá-las ou explorá-las.

É aí que o Brasil pode ser compreendido como laboratório. Não porque alguém tenha planejado em algum gabinete um experimento de vinte anos sobre nossa sociedade, mas porque poucas democracias reuniram, em tão pouco tempo, tamanha combinação de importância geopolítica, desigualdade, digitalização, concentração midiática, judicialização da política e disputa por recursos estratégicos. Diferentes tecnologias de poder encontraram aqui condições para serem testadas, adaptadas e combinadas.

É essa trajetória que pretendo reconstruir. Não para descobrir uma mão invisível por trás da história, mas para observar mecanismos que, isolados, parecem dispersos e, em sequência, revelam uma transformação profunda da disputa pelo poder. Para compreender o Brasil de 2026, precisamos voltar ao momento em que essa batalha ainda tinha outra forma, antes que plataformas digitais organizassem cotidianamente a política e quando a inteligência artificial parecia distante. Precisamos voltar a 2005.

2005: quando a autonomia brasileira começou a mudar o tabuleiro

Voltar a 2005 não significa procurar uma data secreta para o início de uma guerra contra o Brasil. Significa reconhecer uma inflexão. Naquele momento, o país ampliava sua autonomia internacional enquanto a política doméstica entrava numa fase intensa de disputa pela interpretação da realidade.

O símbolo externo foi a Cúpula das Américas, em Mar del Plata. A ALCA, concebida sob liderança dos Estados Unidos, chegou ali ao seu limite político. O Brasil não rompeu com Washington, mas ajudou a afirmar que os interesses do hemisfério não eram homogêneos. Essa posição fazia parte de uma estratégia mais ampla de diversificação, aproximação com América do Sul, África, Ásia e potências emergentes, fortalecimento do Mercosul e busca por maior margem de decisão internacional. Autonomia, naquele contexto, não significava isolamento. Significava capacidade de escolha.

Essa mudança ganharia novas dimensões com o pré-sal, a integração sul-americana e a consolidação dos BRICS. Nada disso prova que os Estados Unidos tenham decidido responder ao Brasil por meio de uma operação clandestina. Prova algo mais simples e necessário para esta história: o país adquiria maior peso estratégico e passava a disputar com mais liberdade sua posição numa ordem internacional em transformação.

Dentro do Brasil, 2005 também marcou uma mudança de ambiente político. O Mensalão colocou o governo Lula sob uma crise permanente de enorme intensidade. As denúncias eram graves e exigiam investigação, mas a questão que interessa aqui é também comunicacional. CPIs, vazamentos, acusações e cobertura contínua passaram a estruturar a agenda pública e a enquadrar a política cada vez mais por uma gramática de corrupção, moralidade e degeneração institucional.

Esse processo ainda era comandado principalmente pelos grandes meios de comunicação. Televisão, jornais e revistas concentravam a capacidade de decidir o que merecia atenção, por quanto tempo e sob qual enquadramento. A internet crescia, mas ainda não organizava a vida política cotidiana. A disputa pela percepção ocorria, portanto, sobretudo pela capacidade de selecionar acontecimentos e delimitar o ambiente dentro do qual a sociedade os interpretava.

Ainda seria exagerado chamar esse momento de guerra híbrida. As condições que depois permitiriam combinar mobilização em rede, plataformas digitais, cooperação jurídica transnacional e disputa........

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