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O fantasma de Jango e a muralha de papel

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30.04.2026

Quando João Goulart esteve na China, em 1961, o gesto ainda parecia maior do que o país estava disposto a suportar. Jango não viajava como revolucionário ou peregrino ideológico. Ia em busca de mercado e relações que eram tão distantes quanto os 22 mil quilômetros que separam Brasília de Pequim.

No Brasil daquela época, aproximar-se de Mao Zedong já bastava para acender o velho alarme das elites, dos quartéis e dos guardiões da ordem. A viagem virou sintoma antes de virar memória. E talvez nunca tenha deixado de ser. Há fantasmas que não saem de Brasília; apenas trocam de roupa.

O mais curioso é que o Brasil de hoje parece muito mais à vontade para falar da China do que para tratá-la como questão de Estado. Lula e Dilma construíram, ao longo dos anos, uma proximidade política rara com Xi Jinping e com a gramática estratégica de Pequim. A sintonia existe, os gestos são públicos, o vocabulário do Sul Global aparece com naturalidade.

O problema começa quando essa afinidade precisa descer do palácio para a estrutura. O discurso avança, mas a arquitetura recua. Brasília evita o tipo de compromisso que poderia transformar boa vontade diplomática em contrapartida material: transferência tecnológica, joint ventures duras, inserção em setores críticos, barganha real em inteligência artificial, semicondutores, baterias e infraestrutura digital. O país flerta com o poder chinês, mas hesita diante da responsabilidade de uma parceria duradoura.

É verdade que a narrativa da China como potência, sobretudo defensiva, tem muito apelo, especialmente entre países que se acostumaram a olhar o mundo a partir das cicatrizes do colonialismo. A Grande Muralha, afinal, nunca foi símbolo de expansão, mas de contenção. A memória chinesa é atravessada por invasões, ocupações e humilhações que ajudaram a moldar sua desconfiança histórica do Ocidente.

Mas o século 21 mudou a natureza do avanço das potências. A China de hoje não precisa agir como os velhos impérios para expandir influência. Não precisa necessariamente invadir. Basta integrar. Pequim avança no mundo oferecendo financiamento, infraestrutura, cadeias produtivas, plataformas........

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