Quando o futuro deixa de ser promessa
O Brasil está diante de uma mudança de época que exige mais do que crescimento econômico para reconstruir a capacidade de decidir o próprio futuro. Durante boa parte do século XX, desenvolvimento significou avançar em direção a uma fronteira relativamente conhecida, como industrializar, urbanizar, elevar a produtividade, ampliar direitos, aumentar a escolaridade e reduzir a distância em relação às economias centrais. Hoje, essa referência perdeu nitidez.
A tese central é simples: o futuro deixou de ser uma promessa automática do progresso e precisa voltar a ser objeto de construção política, econômica e social. Isso significa repensar o desenvolvimento em um mundo marcado simultaneamente pela crise climática, pela revolução digital, pela financeirização, pela reorganização geoeconômica e pela transformação das formas de trabalho, produção e sociabilidade.
Durante boa parte do século XX, havia conflitos profundos sobre quem deveria conduzir o desenvolvimento e quem dele se beneficiaria, mas permanecia uma convicção poderosa acerca da possibilidade de o futuro ser melhor que o presente. Essa talvez tenha sido uma das grandes promessas da modernidade. Mais educação deveria significar melhores empregos, assim como mais tecnologia, menos esforço, mais produtividade, maior prosperidade, mais ciência e maior domínio sobre a natureza.
No primeiro terço do século XXI, essa certeza começou a se desfazer. A ascensão da Ásia, sobretudo da China, desloca o eixo da economia mundial, ao passo que a crise climática evidencia os limites da expansão material e a revolução digital amplia extraordinariamente a capacidade de produzir e processar informações, ao mesmo tempo que concentra poder. Paralelamente, a financeirização permite que a riqueza abstrata cresça em meio ao avanço da insegurança social, enquanto a hiperconectividade multiplica a comunicação e transforma atenção e tempo em bens cada vez mais escassos.
Por isso, a pergunta já não parece ser apenas como crescer mais, mas que desenvolvimento ainda faz sentido e quem terá capacidade de orientá-lo. O Antropoceno tornou essa questão incontornável ao revelar que a humanidade não está separada da natureza e que suas próprias ações alteram as condições materiais de continuidade da vida social. O futuro, assim, deixa de ser apenas aquilo que ainda não aconteceu e passa a ser também aquilo que as decisões do presente podem tornar possível ou mesmo impossível.
Para o Brasil, essa transformação chega em um momento contraditório. No século passado, o país realizou uma das mais rápidas mudanças estruturais entre as economias periféricas de passado colonial e escravista. Em poucas décadas,........
