O próximo ciclo do planejamento brasileiro
Durante grande parte do século XX, governar significava, em larga medida, administrar uma realidade já acontecida. O Estado observava a população, a economia, o território e as condições sociais por meio de censos e pesquisas amostrais periódicas e, a partir desse retrato, formulava políticas públicas com base no presente do passado. Esse modelo, que foi decisivo para a construção do Estado moderno, dependia da produção oficial contínua de informações, associada aos institutos nacionais de estatística e geografia, originários da transição das sociedades agrárias para as sociedades urbanas e industriais.
Mas o mundo mudou, e a velocidade das transformações tornou insuficiente o Estado que apenas descreve o presente do passado. Isso já havia sido percebido anteriormente na experiência de mudança social do tempo, cuja temporalidade lenta, associada aos ciclos da natureza, às atividades produtivas e aos ritmos da vida cotidiana pertencia à sociedade agrária. Uma realidade identificada por Gilberto Freyre em Ordem e progresso.
Com a passagem para a sociedade urbana e industrial, a temporalidade se modificou pela substituição progressiva do trabalho orientado por tarefas pelo disciplinado no relógio. Edward Thompson em Time, work-discipline, and industrial capitalism demonstrou como o tempo se tornou mensurável, fracionado e submetido às exigências da fábrica, produtividade e jornada de trabalho.
Na atual sociedade de serviços hiperconectada da era digital nota-se nova inflexão marcada pela aceleração simultaneamente tecnológica, social e do ritmo de vida. Diante de intervalos cada vez menores de tempo imposto no transporte, comunicações, instituições, relações e conhecimentos, conforme Hartmut Rosa em Social acceleration: a new theory of modernity observou o tempo da instantaneidade presente na sociedade digital.
O Brasil encontra-se atualmente diante da inédita transformação que combina mudança no perfil epidemiológico, inflexão demográfica, emergência climática e deslocamento do dinamismo econômico dos centros econômicos tradicionais para a nova sociedade de serviços hiperconectada da era digital interiorizada. Para além da produção de mais dados, a necessidade de reorganizá-la para o conhecimento sobre o futuro possível com o Estado reconfigurado para agir antes que o problema aconteça.
Não mais com base exclusiva no presente do passado, sobretudo atuando sobre as consequências do que já aconteceu. O Estado necessário para a era digital pressupõe agir sobre o fato gerador com base no presente do futuro dos acontecimentos. A própria transição epidemiológica, por exemplo, sinaliza a ruptura em curso, pois doenças infecciosas e problemas associados à pobreza continuam presentes e ainda convivendo em menor escala coma a expansão das doenças crônicas não transmissíveis, envelhecimento acelerado, transtornos relacionados às novas condições de vida e os impactos ambientais sobre a saúde.
Enquanto a Organização Mundial da Saúde estima que as doenças não transmissíveis já respondam por........
