O panóptico estadunidense
“Quando eu me encontrava preso/Na cela de uma cadeia/Foi que eu vi pela primeira vez/As tais fotografias/ Em que apareces inteira/ Porém, não estavas nua/ E, sim, coberta de nuvens” (Caetano Veloso, Terra).
Ritornelo e modos de ser
No quarto volume da edição brasileira de Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, Gilles Deleuze e Félix Guattari, definiram o conceito de ritornelo como “o conteúdo propriamente musical, o bloco de conteúdo próprio à música” (p. 87), tendo três aspectos, que os torna simultâneos, misturando ritmos em movimentos ininterruptos, assim configurados: “Ora o caos é um imenso buraco negro e nos esforçamos para fixar nele um ponto frágil como centro. Ora organizamos em torno do ponto uma pose (mais do que uma forma) calma e estável: o buraco negro tornou-se um em-casa. Ora enxertamos uma escapada nessa pose para fora do buraco negro” (p. 117).
Tudo começa (um começo sem origem) do caos ou buraco negro, instância da matéria disforme ou da destituição da própria matéria ou do fim da vida, não se separando jamais de modo opositivo o fim e o começo, a vida e a morte; caos pode ser a morte; pode ser a guerra, pode ser qualquer situação que engendre medo.
Há, pois, o caos ou o seu risco, sempre, e é para evitar o seu domínio, como ritmos-dança das existências, que emerge o ritornelo, em italiano, ritornello; uma repetição em diferença, um retorno rítmico, como sinal de notação musical, que se recria do buraco negro, ora como ritornelo clássico, ora como romântico, ora como cosmológico.[i]
O primeiro ritornelo, o clássico, é marcado por componentes direcionais e, por meio de formas internas de vizinhança, perspectiva, em movimento, os campos de passagem entre o caos, imenso buraco negro, e um ponto, um centro: é o princípio do humano, na história humana.
O clássico, esse centro-ponto frágil no caos, pressupõe o segundo ritornelo; o ritornelo romântico, definido como dimensional, porque esboça o nosso em-casa, a história humana como terráqueo, o humano-terráqueo a produzir as civilizações que se dimensionam na Terra, que está no Cosmo; e o Cosmo projeta as linhas de fuga da Terra, constituindo o terceiro ritornelo, o cosmológico.
Ora, ora, ora, tudo ao mesmo tempo retornando-se, passado, presente e futuro, materialismo rítmico complexo, em diferença qualitativa: do caos, o clássico; deste, o romântico; e, deste, o cosmológico. Ora as forças do clássico por meio das forças do caos, ora as forças da Terra, com suas próprias forças do caos, redirecionando o clássico; ora as forças do Cosmo, reterritorializando o caos, o clássico e o romântico.
Experimentação, prudência necessária, improviso, configurando modos de existência, ora com uma dicção mais clássica, ora mais romântica, ora mais cosmológica – três éticas da existência, três ontologias que se interatuam; fazem-se, sem cessar.
Ritornelo e materialismo histórico
Na contramão, entretanto, do idealismo filosófico de Gilles Deleuze e Felix Guattari, é de fundamental importância deslocar os ritornelos para o plano do materialismo histórico real, sobretudo considerando os ritornelos da reprodução vital das sociedades humanas, sob a forma de gens femininos e masculinos, o que oportuniza um diálogo com Friedrich Engels de A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884), para quem o processo de evolução da humanidade resultou a certa altura na passagem de um sistema matrilinear, centrado no ritornelo clássico do retorno em diferença do gens feminino, para a patrilinearidade, assinalando o seguinte a respeito ( evocando, indiretamente o antropólogo norte-americano, Lewis H. Morgan, lido por Karl Marx; e diretamente a este último a partir do acesso às suas anotações de leitura): “Esta parece ser a transição mais natural (Marx)” (ENGELS, 1984, p. 60).
E por que o deslocamento da matrilinearidade para a patrilinearidade pareceria, a propósito, ser uma transição natural? Não esqueçamos, ecoando Deleuze e Guattari, ritornelo clássico agencia forças do caos, o romântico, forças da Terra; e o cosmológico, forças cosmológicas; e que o retorno do caos significou também e talvez antes de tudo o das forças de submissão da natureza, inclusive com o processo de domesticação de animais iniciado pelas mulheres, de modo que, do buraco negro das forças adversas da natureza, o ritornelo clássico se constituiu como centros de gens patriarcais, dimensionando-se como um em-casa das grandes civilizações tributárias antigas, como as da Mesopotâmia, a egípcia, a grega, a árabe, a chinesa; e tantas outras.
O economista egípcio, Samir Amin, a propósito, em Eurocentrismo: crítica de uma ideologia (1985, p. 19) argumentou que a divisão da história entre o escravismo greco-romano, o modelo feudal europeu e a modernidade capitalista é, fundamentalmente, uma forma de percepção do mundo eurocêntrica, acatada, a propósito, pelo marxismo vulgar.
Asseverou que as civilizações pré-capitalistas foram constituídas pelo modo de produção tributário; e experienciaram uma diversidade enorme de modelos de realização, sendo que as mais desenvolvidas foram as que conseguiram justapor justiça, universalidade e razão como promessas coletivas, como foi o exemplo sobretudo da civilização egípcia, da chinesa e em menor medida da grega, que, a rigor, jamais foi o berço do Ocidente, que é, em si, uma categoria igualmente eurocêntrica, assim como a que se designa como Oriente.
Justiça, universalidade e razão foram palavras-chave de modos de existência potencialmente coletivos clássicos das civilizações tributárias mais bem-acabadas, embora patriarcais, o que significa que o........
