Sindicato, primeira e mais importante trincheira do trabalhador
O rendimento nominal mensal domiciliar per capita da população residente no Brasil é um cálculo elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir dos rendimentos do trabalho e de outras fontes. Em dezembro de 2014, esse rendimento era de R$ 1.052,00 (primeiro número da série histórica). Esse valor adquiria, à época, três cestas básicas (2,97), calculadas pelo DIEESE, que, na cidade de São Paulo, custavam R$ 354,19. O último dado oficial do rendimento nominal mensal domiciliar per capita, que é de R$ 2.316,00 (2025), foi divulgado em 27/02/2026. O dado mostra um crescimento nominal (sem descontar a inflação do período), em relação aos R$ 1.052,00 de 2014, de 120% em 11 anos. No entanto, em fevereiro de 2026, esse rendimento conseguia comprar apenas 2,7 cestas básicas calculadas pelo DIEESE, que, em São Paulo, custaram R$ 852,87 no mês passado.
No mesmo período em que ocorreu essa perda de rendimento (2015 a 2025), 11 anos, o Produto Interno Bruto (PIB) obviamente cresceu – ainda que muito abaixo do que poderia. Ou seja, a economia brasileira ficou maior, a produção de riquezas aumentou, mas os trabalhadores diminuíram seu poder aquisitivo, quando medido por sua capacidade de adquirir alimentos. Cresceu a produção de riquezas, mas a população ficou mais pobre.
O arrocho de salários e rendimentos é um mecanismo potente de compensação da crise estrutural que atravessa o sistema capitalista mundial há muitos anos e que vem se agravando. Um cálculo de inflação no varejo, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC-IBGE), por exemplo, o mais utilizado nas negociações coletivas entre patrões e empregados, é uma média de variação de preços na qual entram centenas de produtos que a maioria dos trabalhadores não consome. Produtos da cesta básica, com 13 alimentos essenciais, praticamente todos consomem; por isso são uma boa referência de medição do poder aquisitivo dos salários, especialmente os da base da pirâmide.
É no estabelecimento do preço da força de trabalho que, de forma mais crua e direta, vem à tona a contradição entre os interesses dos capitalistas e os dos trabalhadores. O melhor instrumento para os trabalhadores tentarem evitar que a exploração se torne uma superexploração é lutar por sindicatos fortes, que defendam genuinamente os interesses da classe trabalhadora.
O surgimento do sindicalismo no Brasil carrega as características de um país cujo capitalismo se desenvolveu de forma tardia, atrasada e insuficiente, no qual predominava o capital agrário após quase 400 anos de regime de brutal escravidão. A organização de uma estrutura sindical é registrada pela primeira vez em 1903, entidade ligada, claro, à agricultura e pecuária. A normatização do trabalho é muito recente no Brasil. Na Revolução de 1930, que teve como líder Getúlio Vargas, o Brasil praticamente não tinha direitos. O Ministério do Trabalho foi criado em 1930, o trabalho das mulheres foi regulamentado em 1932 e o salário mínimo foi criado em 1938 (e começou a ser pago em 1940). Os sindicatos surgem, assim, atrelados ao Estado, com o objetivo, dentre outros, de mantê-los sob “rédea curta”. Dentre outras exigências, inclusive, os sindicatos só eram reconhecidos pelo Ministério do Trabalho, o que fornecia ao Estado grande poder de controle das entidades. Não havia as chamadas liberdade e autonomia sindicais.
Na condição de primeira e mais importante linha de defesa do trabalhador, os sindicatos se movem, historicamente, sob violento fogo cerrado. Além dos ataques patronais, há inúmeras outras dificuldades no trabalho de sindicalização e de arregimentação de pessoas para o trabalho coletivo. No mundo todo há uma mobilização dos trabalhadores que pode ser considerada de baixa intensidade, o que impacta bastante o trabalho de sindicalização e a ação geral do sindicato.
A sistemática desqualificação dos sindicatos em geral torna muito difícil os trabalhadores na base enxergarem a importância que exercem essas entidades em suas vidas. A cultura de valorização do indivíduo, tão cultivada na sociedade a partir da propaganda neoliberal, leva os trabalhadores em geral a achar que conseguem resolver seus problemas solitariamente, sem a ajuda do sindicato ou de outras formas de organização coletiva. Uma parcela dos trabalhadores imagina que, se trabalhar muito mais do que a média, conseguirá ser reconhecida pela empresa e subir profissionalmente, sem precisar da ação coletiva do sindicato. E isso é verdade. O problema é que a fórmula funciona para um trabalhador em milhares. Analisada a história com atenção, constataremos que não há concessões da burguesia; todos os direitos existentes são frutos das lutas coletivas dos trabalhadores.
A vida duríssima do trabalhador em todo o mundo (desemprego, baixos salários, péssimas condições de trabalho etc.) dificulta que ele pare para refletir sobre questões de grande importância. A situação é tão desfavorável que o trabalhador nem quer parar para ouvir os argumentos dos sindicalistas, independentemente do assunto. Dessa forma, textos e materiais em geral produzidos pelo sindicato não são lidos pela maioria dos trabalhadores, seja por falta de tempo, medo, desinteresse, falta de curiosidade etc. Também o assédio moral e a superexploração dificultam muito o trabalho dos sindicatos.
O trabalhador, pressionado pelo conjunto de dificuldades, muitas vezes espera do sindicato vantagens de caráter assistencialista, as quais a entidade não consegue oferecer por crescentes limitações financeiras. É certo que o assistencialismo não deve ser praticado pelo sindicato como um fim em si mesmo. A assistência não é função da entidade sindical, que nem dispõe de recursos para praticá-la. Porém, dada a extrema gravidade da crise econômica atual e do franco empobrecimento da classe trabalhadora, se o sindicato dispuser de condições, penso que ele deve amparar o trabalhador em suas dificuldades. Normalmente, não existe ação sindical em meio a grandes dificuldades financeiras.
Não se trata da assistência social tradicional, acrítica e como um fim em si mesmo. É uma ajuda que o sindicato pode prestar ao trabalhador desempregado de sua base, se isso não ameaçar a sua própria sobrevivência, mas sempre vinculando a referida ajuda a um processo de formação básica sobre sindicalismo, deixando claro para o trabalhador que sua situação não é uma fatalidade, e sim resultado direto da exploração que ele sofre.
Uma grave dificuldade da ação sindical é que, historicamente, há uma sonegação à população em geral e à juventude da história dos direitos e dos sindicatos. Isso ocorre na escola tradicional, nas instituições, nas empresas, nos meios de comunicação etc. A história em geral é desconhecida, mas principalmente a história dos trabalhadores, que são maioria absoluta da população. Em consequência, uma parcela significativa da população, especialmente a juventude, supõe que os direitos existentes “caíram do céu”, ao invés de serem frutos de décadas de muita luta.
Essa visão a-histórica dos direitos, por ironia, está sendo violentamente negada pela história recente, quando os direitos estão sendo destruídos em escala e velocidade industriais, não só no Brasil, mas em muitas partes do mundo. Aqui no Brasil, o golpe de 2016 (que completa 10 anos) intensificou esse processo de destruição de direitos, contando, para tal empreitada, com o conjunto dos poderes da República.
A tarefa de sindicalização requer conhecimento do sindicato e de algumas noções de economia e de política que a maioria dos trabalhadores não possui. Um fenômeno que também dificulta a sindicalização é a política antissindical, com a disseminação de calúnias, a associação do sindicato com desemprego ou com corrupção e, inclusive, a demissão em caso de filiação ao sindicato. Esse conjunto de ações dificulta muito o trabalho sindical, porque a empresa exerce grande influência sobre o trabalhador, na medida em que a vida deste e de sua família depende da manutenção do emprego.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
