A manhã ainda precisa de nós
“Um galo sozinho não tece uma manhã:ele precisará sempre de outros galos.”
João Cabral de Melo Neto, Tecendo a manhã
Há algo de profundamente belo na reação popular que atravessa este segundo turno. As ruas se encheram de gente, as redes ganharam o movimento de uma praça imensa, e a campanha de Lula passou a reunir vozes que se procuram, se reconhecem e se encorajam. Em um país tantas vezes levado a desconfiar de si mesmo, essa capacidade de reencontro tem uma força que merece ser compreendida.
A beleza está nessa disposição de sair do isolamento e fazer alguma coisa junto. Uma presença se soma a outra. Uma mensagem encontra quem estava calado. A coragem de alguém ajuda outra pessoa a vencer o desalento. Aos poucos, o que parecia uma inquietação solitária ganha a dimensão de uma vontade coletiva.
É assim que um povo se torna autor da própria história. Ao ocupar as ruas e disputar as redes, ele põe em circulação sua memória, seus desejos e sua recusa em entregar o futuro. A campanha ganha uma energia que depende de cada participante e que nenhum comando, sozinho, consegue produzir.
Essa alegria carrega uma responsabilidade. Restam horas decisivas, e toda essa presença precisa chegar à urna. O entusiasmo deve nos aproximar de quem ainda está distante, dar persistência à conversa difícil e ajudar a transformar a esperança em votação. A manhã que começa a clarear exige trabalho até o fim.
O que está em jogo alcança o futuro do Brasil e a capacidade de resistência da democracia em um mundo pressionado pela ultradireita. Uma derrota democrática brasileira teria consequências muito além de nossas fronteiras. Por seu tamanho e por sua influência, o país ocupa um lugar decisivo nessa disputa internacional.
A memória recente impõe atenção. O Brasil atravessou uma tentativa de impedir a alternância de poder e assistiu à violência de 8 de janeiro. Houve uma ofensiva concreta contra a vontade popular e a........
