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Dois pesos para o mesmo risco

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21.09.2026

No sábado, 19 de setembro, Donald Trump anunciou em post na sua rede social a criação de uma “AI Force”, comparada por ele à Space Force de seu primeiro mandato, e a futura nomeação de um czar de inteligência artificial. No mesmo texto, classificou como embuste politicamente motivado os apelos por desaceleração da implementação da IA, que vinham de parlamentares dos dois partidos e dos próprios laboratórios de fronteira, afirmou que seu governo não vai obstruir o crescimento da indústria e sustentou que o sistema criminal e civil já existente basta para coibir abusos. A Casa Branca não esclareceu se o novo órgão será militar ou civil.

Três meses atrás, esse mesmo governo ordenou à Anthropic que suspendesse o acesso aos modelos Fable 5 e Mythos 5 para qualquer estrangeiro, dentro ou fora dos Estados Unidos, incluindo os funcionários da própria empresa sem cidadania americana. A justificativa foi segurança nacional, sem detalhamento público. O controle só caiu depois de negociação que produziu novas classificadoras de segurança e um acordo com o Departamento de Comércio.

Entre os dois episódios existe uma política coerente. O risco da inteligência artificial é tratado como embuste quando limitaria o crescimento da indústria americana e como ameaça concreta quando define quem, fora dos Estados Unidos, tem acesso à tecnologia. São dois pesos para o mesmo perigo e o que determina qual deles entra na balança é a nacionalidade de quem seria afetado.

Internamente, a política de Washington é de aceleração declarada. Trump prometeu que o governo vai zelar pela indústria em vez de obstruí-la, projetou que a inteligência artificial pode chegar a 25% do PIB do país e afirmou que os Estados Unidos estão à frente da China e do restante do mundo. Classificou como desvairada a reação popular contra data centers, que virou tema das eleições de meio de mandato e divide o próprio Partido Republicano, onde parlamentares acompanham a preocupação dos eleitores com conta de luz e perturbação da vizinhança.

O aparato de fiscalização anunciado opera depois do dano. Aplicar a lei criminal e civil existente transfere ao prejudicado o ônus de provar a lesão, num campo em que a assimetria de informação entre desenvolvedor e vítima é o problema central. Nenhuma obrigação prévia de teste, documentação ou auditoria decorre do anúncio de sábado.

A Câmara dos Representantes entrou em recesso em 17 de setembro e retorna em 9 de novembro, ausente durante toda a semana decisiva. David Sacks, que deixou o posto de czar de inteligência artificial em março e hoje copreside o conselho presidencial de assessores para ciência e tecnologia, criticou tanto os documentos de junho quanto o ensaio de setembro dos laboratórios. E uma ação protocolada em 18 de setembro em tribunal federal da Califórnia acusa as empresas de inteligência artificial de violar a lei antitruste ao coordenar a desaceleração, o que entrega ao campo do acelerador uma arma judicial contra o campo do freio, ainda que os autores digam não se opor a que as empresas peçam ao governo regulação própria ou isenção antitruste.

Do lado de fora, a mesma tecnologia é tratada como ativo estratégico sob controle. O episódio de junho provou que o desligamento remoto existe, funciona globalmente e depende de decisão administrativa de um governo........

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