A pressão vem em etapas. E se Lula vencer a eleição de 2026?
Os acontecimentos das últimas semanas parecem desconexos.
O tarifaço de Donald Trump. Os ataques ao Pix. As investigações comerciais contra o Brasil. A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado. A presença permanente de Eduardo Bolsonaro em Washington. As fotografias de Flávio Bolsonaro ao lado do presidente dos Estados Unidos.
Cada episódio pode ser analisado separadamente. Mas há outra forma de observá-los. Como parte de um ambiente crescente de pressão sobre o maior país da América Latina justamente quando Luiz Inácio Lula da Silva volta a crescer nas pesquisas e se aproxima da reeleição.
Não é necessário afirmar que existe uma intervenção em curso para reconhecer que os sinais merecem atenção. A história da América Latina ensina que as grandes pressões externas raramente começam de forma explícita. Elas costumam vir em etapas.
A lição esquecida de 1964
Para compreender por que tantos brasileiros observam com preocupação os acontecimentos atuais, é preciso recordar como começou a crise que desembocou no golpe militar de 1964.
Ao contrário da narrativa construída posteriormente, a ruptura democrática não surgiu de repente na madrugada de 31 de março. Ela foi preparada durante anos. Primeiro veio a construção do medo. O governo de João Goulart passou a ser apresentado como uma ameaça à religião, à família, à propriedade privada e à própria sobrevivência da democracia. O fantasma do "comunismo ateu" foi transformado numa poderosa ferramenta de mobilização política.
Setores empresariais, parte da grande imprensa, organizações anticomunistas, grupos conservadores e lideranças religiosas passaram a difundir a ideia de que o Brasil caminhava para uma revolução comunista.
O terço como “arma” contra o comunismo e a desagregação familiar.
As Marchas da Família com Deus pela Liberdade de 1964, lideradas pelo Padre Peyton, foram a expressão mais visível desse processo e ocorreram em São Paulo capital, com 500 mil pessoas; no Rio de Janeiro, a maior de todas, com 800 mil pessoas; em Curitiba, no Paraná; em Salvador e Alagoinhas, na Bahia; e em Aracaju, Sergipe.
O slogan do Padre Peyton era “A Família que Reza Unida Permanece Unida”. Ele lançou a “Cruzada do Rosário em Família”, em 1945 nos EUA, e trouxe para o Brasil nos anos 60. Esse slogan virou o carro-chefe das “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”. A ideia era difundir o terço como “arma” contra o comunismo e a desagregação familiar.
Em nome da defesa da fé cristã, milhares de brasileiros foram mobilizados para apoiar a derrubada de um presidente legitimamente eleito. Hoje se sabe que a participação dos Estados Unidos foi muito mais profunda do que se admitia na época. Documentos posteriormente revelados mostraram o apoio político e logístico de Washington aos conspiradores.
A Operação Brother Sam deixou navios, combustível, equipamentos militares e apoio estratégico de prontidão para auxiliar os golpistas caso houvesse resistência ao movimento que derrubou Goulart. Quando a campanha de medo, a pressão política e a desestabilização institucional cumpriram seu papel, veio a etapa seguinte. Os tanques ocuparam as ruas.
O resultado foi uma ditadura que durou 21 anos, suprimiu eleições diretas, censurou a imprensa, perseguiu opositores,........
