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O militar acordou. Será?

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28.06.2026

A história adora pregar peças. E a mais recente ocorreu quando o governo estadunidense, sob a sofreguidão de Donald Trump pelo reordenamento global, classificou formalmente as maiores facções criminosas brasileiras como “organizações terroristas estrangeiras”. Apesar do estardalhaço que a notícia causa nos meios midiáticos, políticos e em grande parte da intelectualidade brasileira é possível, sem tirar nem pôr, assistir de camarote algumas velhas e convenientes certezas desabando.

Tendemos a crer, talvez entorpecidos pela quantidade de notícias absurdas diariamente, que as bravatas destiladas por Trump contra a América Latina não passam de um espetáculo eleitoral focado em agradar seus redutos radicais. Outra grande ilusão é a de que o pré-candidato bolsonarista teve papel determinante, lhe sendo atribuída uma importância além da de capacho dos interesses ianques. Puro engano. A repentina reclassificação jurídica das facções narcotraficantes brasileiras opera, na verdade, como um mecanismo de pressão geopolítica hemisférica.

A medida não distingue quem é santo ou demônio. Foi assim que, de maneira absolutamente dialética, ela parece ter desestabilizado o intrincado labirinto ideológico que sustenta a décadas as nossas Forças Armadas. A astúcia da razão, como ensinou Hegel ao observar as contradições do espírito humano, tem dessas coisas. Uma ação imperialista dessa magnitude não passa sem produzir efeitos colaterais. Diante da ilusão de que as forças armadas brasileiras permaneceriam em sua eterna latência, Washington talvez tenha despertado a Caserna para sua missão precípua: a defesa da soberania brasileira.

Trata-se apenas de uma percepção sem nenhum lastro científico. Blogs de assuntos militares, como o Defesa em Foco, publicou em março de 2025 o artigo “Trump, geopolítica e a fragilidade estratégica do Brasil”. Esse artigo trata da vulnerabilidade estratégica do Brasil diante das imposições dos EUA para uma ordem global mais fragmentada e agressiva. O texto expõe a falta de uma política externa clara e de alianças sólidas do país. Como este, outros estão sendo produzidos. Isso não significa dizer que houve uma guinada ideológica castrense. Mas as condições apontam para um ajuste, uma vez que a potência imperialista do Norte se mostra cada vez mais hostil.

Ao transformar um problema crônico de segurança em um conveniente pretexto para a intervenção extraterritorial, Washington transforma o território brasileiro em alvo potencial. Subitamente, diante do abismo de sua histórica sabujice, irão os generais se dar conta de que o alinhamento automático jamais conferiu status diferenciado à Caserna e seus próceres? Ou apenas tiveram um alvo pintado em suas costas?

Para entender a gravidade dessa reclassificação semântica imposta de fora para dentro, é necessário superar a ingenuidade crônica das elites econômica brasileiras. É preciso voltar os olhares para a derrocada do atual sistema-mundo, com atenção especial para Venezuela e Irã. A ordem mundial, esfacelada pelo direito militarizado, encontra na aplicação do rótulo de “terrorismo” o léxico........

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