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O que aprendi na Universidade Fudan — e o que a Nova Guerra Fria dos EUA se recusa a compreender

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25.07.2026

Neste mês de julho de 2026, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos adicionou a Universidade Fudan e a Universidade Jiaotong de Shanghai à lista de instituições estrangeiras consideradas uma ameaça à segurança nacional dos EUA. A novidade desta medida é que o Departamento de Defesa passa a mirar não só as instituições ligadas às forças armadas, mas também as universidades civis. No caso, duas entre as melhores do mundo.

Esta decisão proíbe qualquer financiamento ou uso de equipamentos do Pentágono em pesquisas ou colaborações acadêmicas com estas universidades. Conforme o South China Morning Post, “as inclusões representam uma expansão da campanha de Washington contra o que descreve como influência chinesa indesejada e transferência de tecnologia na pesquisa americana”[1]. Sem detalhar ou apresentar qualquer prova, a alegação dos EUA é de que estas instituições chinesas podem apropriar-se indevidamente dos dados de pesquisas financiadas pelo governo dos EUA. Em suma, acusa as instituições chinesas de espionagem.

Seguramente, tal medida afetará uma ampla rede de parcerias científicas, pois a proibição se aplica a bolsas, contratos e qualquer outra forma de auxílio e se estende a todos os funcionários dessas instituições. O pesquisador de uma universidade americana que colaborar com um indivíduo afiliado a uma das duas universidades chinesas representa um risco de conformidade, podendo impactar sua elegibilidade para financiamento federal, e a omissão dessas relações pode violar a lei dos EUA. Em outras palavras, inviabilizará a carreira deste pesquisador. Como disse Liu Chang, porta-voz da embaixada chinesa em Washington, “restringir os intercâmbios normais de pesquisa acabará prejudicando os interesses de pesquisadores e instituições americanas também.” Concordo. Mas os EUA decidiram politizar ainda mais os intercâmbios científicos e acadêmicos.

O fato é que qualquer pesquisa de ponta e estratégica é financiada pelo governo e a grande maioria delas é desenvolvida nas universidades. Isto é válido para a China, os EUA e qualquer outro país industrializado. A ligação entre universidades e a indústria é uma equação fundamental para a soberania de um país. No Brasil, ainda estamos no processo de convencimento da população e, consequentemente, dos políticos, sobre a importância desta relação.

Há inúmeros exemplos históricos e contemporâneos de financiamento direto do governo dos Estados Unidos a universidades para pesquisa em tecnologias consideradas estratégicas para a segurança nacional, a competitividade econômica e a liderança científica do país. O caso mais conhecido é o da criação da internet, que surgiu como um projeto do então chamado Departamento de Defesa dos EUA. A agência militar DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) financiou universidades como Massachusetts Institute of Technology, Stanford University, University of California e Carnegie Mellon University. O sistema GPS também contou com o apoio do Departamento de Defesa. Há décadas, os Estados Unidos utilizam universidades como pilares de sua estratégia nacional de inovação, financiando pesquisas em inteligência artificial, semicondutores, computação quântica, biotecnologia, energia nuclear e outras tecnologias de interesse estratégico. Não há nada de novo aí. O que mudou nos últimos anos foi a percepção de que as universidades chinesas de excelência também passaram a desempenhar um papel semelhante na estratégia de desenvolvimento científico e tecnológico da China.

A recente inclusão da Universidade Fudan e de outras universidades civis chinesas em listas de restrição do Departamento de Guerra dos EUA deve ser compreendida nesse contexto mais amplo de competição tecnológica entre as duas maiores economias do mundo. Assim, a discussão não é propriamente sobre a existência de vínculos entre universidades e projetos estratégicos – algo comum em diversas grandes potências –, mas sobre como a rivalidade geopolítica passou a influenciar a circulação internacional de pesquisadores, a cooperação científica e o intercâmbio universitário.

Eu fui Senior Foreign Expert do Centro BRICS da Universidade Fudan no período de julho de 2014 a dezembro de 2015. Tive o privilégio de tornar-me o primeiro pesquisador estrangeiro vinculado àquele Centro, experiência que me permitiu acompanhar debates estratégicos sobre governança global, desenvolvimento e cooperação internacional diretamente com acadêmicos que ajudavam a pensar o futuro da China, dos BRICS e do........

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